Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 7, ou as ruínas do norte

Mais um dia a começar cedo, para mais uma viagem a partir de Amman. Não sem antes tomar o pequeno-almoço no terraço do nosso hotel, com o sol a bater na cara e com a baixa de Amman como companhia.
O nosso motorista (o mesmo de ontem) vem buscar-nos às 9h30 para nos levar a Jerash e a Ajloun. No entanto, primeiro leva-nos a visitar a Mesquita do Rei Abdullah. Talvez seja apenas a segunda vez que visito uma mesquita, depois de o ter feito anteriormente em Istambul. É uma sensação estranha. Primeiro, não gosto particularmente de visitar locais de culto religioso enquanto turista. Acho que há algo de devassamento numa situação dessas. Ainda mais quando não é do "meu" culto que se trata (não que eu seja de modo algum religiosamente activa). Apesar disso, mesquitas vazias (como estão quando é permitida a entrada a turistas) têm algo de muito repousante. Espaços tendencialmente grandes e despidos de ornamentos, convidam facilmente à reflexão. Gosto dos jogos de luz e sombra, dos enormes candeeiros pendentes do tecto alto.

Seguimos então viagem para Jerash, antiga cidade romana, num estado de preservação muito razoável. Nela deambulamos durante algumas horas, por entre ruínas de templos, igrejas, teatros, zonas comerciais, ruas colunadas... Há para todos os gostos e a fotogenia do local é elevada. Interessante que não seja um sítio todo bem arranjadinho, organizado. Aqui podemos andar à vontade, trepar a qualquer vestígio, que não há ninguém para nos impedir. Não são muitos os sítios onde temos tamanha liberdade para explorar. Entretanto, a manhã já deu em tarde e a fome começa a apertar, pelo que pedimos ao nosso motorista para fazermos pausa para almoço antes de seguirmos para o castelo de Ajloun.
Almoçamos num sítio óptimo, com uma quantidade de comida que dava para um batalhão (tradicional comida do Médio Oriente, com mezzes frias e kebabs) - tudo a transbordar de sabor e acompanhado do fresquíssimo sumo de limão com menta (tenho que experimentar fazer por casa). Pena é que tenhamos pouco tempo para dedicar ao almoço, isso se quisermos apanhar o castelo aberto. A viagem até lá é alucinante, por entre colinas salpicadas de verde. A paisagem é muito diferente aqui, muito mais fértil. Perdem-se de vista terraços e terraços de oliveiras. Que me fazem agradecer o facto de estarmos em Novembro e o período de polinização ser na Primavera.
O castelo de Ajloun, erguido no cimo de uma destas colinas, é do tempo das Cruzadas e, aprendemos, manteve-se sempre invicto durante o período de invasões. Temos vistas de 360º que deixam antever o vale do rio Jordão e a Palestina a oeste. Mas a neblina é muita e a visibilidade não é a melhor. O sol começa a pôr-se e podemos ver que vai ser um dos bonitos, com cores fornecidas pelas nuvens que se acumulam no horizonte.
Regressamos a Amman com a noite a instalar-se e a lua cheia a subir no céu. Um cenário digno de se ver. Para encher almas.


Mesquita do Rei Adbullah, Amman

Templo de Zeus, Jerash

Jerash

Jerash

Vista do castelo de Ajloun

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 6, ou o fenómeno do Vale do Rio Jordão

Agora que estamos baseados em Amman, temos o norte do país para explorar. E uma das primeiras coisas que queremos fazer é ir mergulhar no Mar Morto. Que é como quem diz flutuar, porque mergulhar não dá, com tamanha concentração de sal!
Para o efeito, escolhemos um tour sugerido pelo hotel, com visita ao Monte Nebo, Madaba, ao local do Baptismo de Jesus Cristo e, finalmente, ao Mar Morto. Partimos pela manhã, depois de pequeno-almoço na cama (o hotel não tem sala de refeições). A primeira paragem é no Monte Nebo, local onde Moisés morreu, não sem antes ver a Terra Prometida. Hoje em dia, há uma igreja no cimo do monte (local onde sempre existiu um lugar de culto religioso), com mosaicos muito bem conservados, E há a vista, a perder de vista (perdoem-me o jogo de palavras), com o Vale do Rio Jordão ao fundo, a desembocar no Mar Morto. Por momentos, fico um pouco perdida em relação à razão pela qual é a Terra Prometida. Difícil imaginar, num cenário tão árido... mas é certo que o vale é mais verdejante e a diferença notória. Aceito essa com sendo a razão. De seguida, paragem (demasiado) curta em Madaba, onde temos direito a visitar a Igreja Ortodoxa de São Jorge e a ver o emblemático mosaico que representa a Terra Prometida. Madaba é uma cidade maioritariamente cristã, fruto de influxos migratórios de outros tempos. Contudo, não há tempo para explorar. Tenho que confessar que não gosto nada deste género de passeios, com paragens curtas para retirar itens da lista de viagem.
Depois descemos ao Vale para visitarmos o local onde Jesus foi baptizado. É maior a curiosidade do que propriamente o interesse histórico. Quando me apercebo que a visita dura cerca de uma hora e meia, arrependo-me quase de imediato.
O rio Jordão já não passa no ali, mas ainda é possível ver uma espécie de pia baptismal, parte das sucessivas igrejas e capelas que foram aí construidas como local de peregrinação. O rio passa agora um pouco mais ao lado, e é uma visão algo estranha. Sendo que é a fronteira entre a Jordânia e Israel, temos à nossa frente, a uns escassos três metros de distância, Israel. Do lado israelita, o local está muito mais explorado e há até um grupo de pessoas a fazer abluções no rio...
No vale faz calor, muito mais calor. Deverão ser quase 10ºC de diferença. É um fenómeno inusitado, mas que acaba por fazer sentido, se considerarmos que todo o vale está abaixo do nível do mar. Ou pelo menos esta parte.
Ansiosos que estamos, seguimos para o Mar Morto. Já se faz um pouco tarde e estamos cheios de fome. É nossa opção acedermos ao Mar Morto em Oh Beach, mas acaba por desapontar - as condições no resort são fracas e  o acesso ao mar mais parece um local de obras. Mas nada quebra o nosso entusiasmo! O sol está a descer rapidamente e nós entramos na água salgada - é possível "ver" o sal a movimentar-se na água quando em contacto com o nosso corpo. O impulso é forte e é impossível fazer outra coisa que não seja flutuar. De costas. Experimento nadar e as pernas saem de água, como se impulsionadas por uma mola. Uma experiência estranhíssima, mas que nos deixa a brincar dentro de água como crianças. O sol começa a pôr-se e oferece-nos um cenário único, a gravar na retina. Depois do banho, ainda houve direito a máscara facial de lamas, a secar ao pôr-do-sol.
Embora não tenha sido a experiência que idealizamos, com direito a spa e massagem, foi ainda assim algo que nos deixou de sorriso nos lábios. E muito sal no corpo, a formar um estranho filme gorduroso na pele, que só depois de um longo duche consigo retirar.

Vistas do Monte Nebo

Monte Nebo

Em Madaba

Sítio do baptismo de Jesus Cristo

No Mar Morto

Pôr-do-sol no Mar Morto

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 5, ou Petra pela última vez

Última incursão por Petra. Há tanto para ver que facilmente poderíamos passar uma semana a explorar a cidade antiga. Mas não temos esse tempo e, como tal, é preciso fazer escolhas. E optamos por subir ao Sítio Alto do Sacrifício (minha tradução improvisada) - parece uma caminhada simpática e recompensada com belas vistas do cimo da montanha.
Começamos mais cedo do que é costume e somos brindados com o camaleonismo de Petra - as suas cores de manhã cedo são completamente diferentes das das outras alturas do dia em que visitámos. E, assim, à quarta vez em que fazemos o percurso de incursão na cidade, ainda conseguimos ser surpreendidos. E é nitidamente uma altura mais calma para visitar, antes de chegarem os milhentos autocarros cheios de turistas que cá vêm passar o dia.
A subida começa um pouco mais abaixo do Tesouro e facilmente reconhecemos o caminho, com degraus em direcção à montanha. Alguns são recentes, mas outros fazem parte do engenho nabateu e remontam há muitas centenas de anos atrás. É interessante parar um pouco e pensar nisso. Perceber como estes caminhos que percorremos hoje enquanto turistas exploradores em tempos serviram um verdadeiro propósito, com uma população dinâmica.
O caminho é sempre a subir e não tem muito que enganar. Pelo caminho, vamos ganhando outras perspectivas da cidade lá em baixo, e outras partes vão-nos sendo reveladas pelas montanhas. O Sítio Alto do Sacrifício é exactamente o que o nome descreve. É um sítio no alto da montanha onde encontramos um altar de sacrifício, com "canalizações" para drenar o sangue e uma mesa larga para reunir os convivas. Aqui se sacrificavam animais como oferendas aos deuses, rituais tão comuns em civilizações idas (e não só, ainda se verificam em diversas culturas actuais). Se do ponto de vista cultural é um lugar interessante, mais interessante é pelas vistas desafogadas que proporciona. Vamos percorrendo os caminhos por entre as rochas e a cada dois, três metros há uma nova perspectiva que se abre perante os nossos olhos. É a loucura das fotografias, panorâmicas e não só.
Com uma pausa para retemperar energias, somos abordados por um rebanho de cabras pertencente às pessoas que exploram uma tenda de souvenirs no cimo do monte. Decido oferecer-lhes uns biscoitos de pão que já estão um bocado secos e faço amigos para a vida! As cabras não me querem largar e por momentos receio ser empurrada pela rocha abaixo. Salva pelas donas que vêm espantar as bichas e mandá-las passear. Literalmente.
Depois deste pequeno episódio divertido, pomo-nos a caminho. Muito gostaríamos de dar a volta à montanha pelo lado oposto, mas o tempo contado obriga-nos a regressar pelo mesmo caminho por onde subimos. E tanto que fica por ver, apesar das três visitas a Petra que fizemos. Realmente, este país tem muito que se lhe diga e merecia umas férias mais alargadas.

Depois de recolhermos as nossas mochilas no hotel, tentamos a inglória missão de comprar bilhetes de autocarro para Amman. Depois de todo um conjunto de informações desfasadas, lá identificamos o autocarro e conseguimos, a muito custo, comprar os bilhetes. Não é fácil usar transportes públicos nesta terra!
São quatro horas de viagem de autocarro até Amman, onde chegamos já de noite a uma estação de autocarro sombria. Somos abordados de forma persuasiva (para dizer o menos) por alguém que nos quer conduzir ao hotel, e lá vamos. O hotel é simpático e limpo, e depois de nos instalarmos procuramos um sítio próximo para jantar.
Estamos nitidamente cansados e a precisar de uma boa noite de sono para enfrentar o norte do país. Que parece ter ainda mais para oferecer.


O elefante do Siq

Subida para o Sítio Alto do Sacrifício

Sítio Alto do Sacrifício

Os túmulos vistos de lá de cima

As minhas amigas cabras antes do ataque!

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 4, ou o paraíso de Dana

Hoje fazemos uma pausa de Petra. Vamos até à reserva de Dana, um pouco mais a norte, ao longo da famosa King's Highway. Desde que abri o guia da Jordânia recém-comprado que me fugiram os olhos para esse lugar, um pouco perdido, de montanhas verdejantes. Mas estamos no período pós-Verão, por isso não há grande vegetação que resista.
Pelo caminho, o nosso motorista de táxi sugere-nos uma paragem em Shobak, local onde se encontram instaladas ruínas de um castelo. Não me lembro de que altura... será do tempo das Cruzadas? Acho que sim. As ruínas estão bem preservadas e a localização do castelo é impressionante, rodeado de montanhas áridas a toda a volta. Daquelas paisagens que não me canso de admirar. Dali até Dana, vamos antevendo um pouco a paisagem que nos espera, com a escarpa da montanha a brincar connosco às escondidas.

Dana é uma pequena aldeia, composta em tempos por pequenas cabanas de pedra. Hoje, a maioria está abandonada e transformada num amontoado de pedras, mas também se vêem algumas recuperadas e que albergam pequenos hotéis e restaurantes. A exploração (no bom sentido) de Dana é recente, e ainda são poucos os turistas com que nos cruzamos por aqui. No extremo da aldeia, temos o início do tão ansiado trilho que desce a montanha e atravessa o vale até Feynan. Infelizmente, não temos tempo para essas andanças (fica a vontade para uma próxima vez), mas descemos um pouco a encosta para sermos arrebatados pela paisagem que nos rodeia. É avassaladora. Mais uma vez, sinto que as fotografias que possa tirar não fazem justiça ao local e, talvez por isso, não tiro muitas. Prefiro sentar-me e admirar. Perder-me na imensidão daquilo que os meus olhos percebem e que não consigo transmitir, seja por fotografias ou por palavras.

Depois de enchermos a alma com o local, regressamos à aldeia à procura de alimento para o corpo. Não há muitas opções e acabamos na cooperativa para o desenvolvimento da região (ou algo desse género). E ainda bem que o fazemos. Após uma confusão inicial, lá conseguimos encomendar o almoço (ligeiro, vegetariano, segundo uma rapariga estrangeira nitidamente neo-hippie que parece estar de alguma forma ligada à administração do local). Enquanto a comida não chega, é-nos servido um chá no terraço solarengo. Mas a comida não tarda e em breve somos chamados até à sala de refeições. A quantidade de comida é um exagero e vem no formato de quatro pratos diferentes: uma mistura de batata frita e ovo (a lembrar o prato que a mãe fazia aos domingos à noite), gallaieh, salada de tomate, pepino e pimento, e umas almôndegas de borrego. E pão a acompanhar, está claro. Tenho apenas uma palavra para descrever o manjar: divinal. A comida tem tanto de simples como de saborosa. Apetece comer e continuar a comer até o corpo não aguentar mais. Mas como já sou crescida o suficiente para saber que isso é uma má ideia, páro. Depois do almoço, regressamos ao terraço e ao baloiço por lá instalado para bebermos mais um chá. Uma meia hora de puro relaxamento debaixo do sol.
Começo a acreditar no que o autor do guia diz a respeito deste local: independentemente do que se faça, dá vontade de ficar. De não partir. Principalmente para o bulício de Wadi Musa.

Vista do Castelo de Shobak

Castelo de Shobak

Castelo de Shobak

Reserva de Dana

O nosso manjar divinal

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 3, ou Petra a sério

Segundo dia em Petra. Acordar tardio, após uma noite não muito bem dormida (mesmo sem acordar com o chamamento para as orações às 4h da manhã). Pequeno-almoço que parece uma mistura entre oriental e ocidental, com manteiga e doce a acompanhar o flatbread típico daqui. Húmus e falafel não faltam também, mas o estômago não está preparado para tais aventuras. Ainda.
De seguida, vamos à procura de mantimentos para a jornada, que se adivinha longa, por Petra. Fruta comprada a um senhor velhinho, muito fotogénico, que pouco fala de inglês. Também não é precisa grande comunicação, apenas perceber o preço e pagar. Um pouco mais abaixo, encontramos a padaria local. De repente, estamos envolvidos numa miríade de bolos, pão de vários tipos, baclavas. Os olhos comem, e o nariz também! Tentamos não ser garganeiros e apenas compramos uns bolos recheados de queijo, a fazer espécie de almoço improvisado.
Seguimos caminho, pela mesma estrada curvilínea que ontem percorremos por duas vezes, em cada sentido. O dia promete e há muito para ver. Mas primeiro há que atravessar o Siq e passar o Tesouro, caminho que (também) já fizemos por duas vezes.
À terceira visita de Petra, finalmente chegamos ao dito centro da cidade, com a sua rua colunada. Ao longe, na montanha, vemos os túmulos, mas essa visita não é para hoje. Hoje o plano é o Mosteiro, bem lá no cimo e escondido pela montanha - são alegadamente 800 degraus até lá em cima, e com certeza demoramos o nosso tempo a lá chegar! Caminho íngreme, pisando pedras coloridas, constantemente a desviarmo-nos dos burros que transportam os mais preguiçosos até lá cima (e para baixo também). Uma animação, pontuada por pequenas barracas de souvenirs, onde vejo, pela primeira vez, mulheres a "trabalhar". "Venha cá, venha cá. Tudo muito barato, um dinar." Continuo a perguntar-me o que custaria um dinar - toda a parafernália de pequenos objectos e bijuteria nitidamente não local? Não sei. Ficarei na dúvida.
As vistas pelo caminho são de cair o queixo, com os canyons a sucederem-se e as montanhas a deixar entrever o que de Petra deixámos para trás. Mas, no cimo, espera-nos algo muito mais grandioso: o Mosteiro, está claro, construído em estilo semelhante ao Tesouro mas maior (e com uma praça quase vazia à sua frente); mas, principalmente, a envolvência de maciços rochosos que transforma o local em algo muito mais especial do que "apenas" um dos pedaços arquitectónicos de Petra. Aqui a Natureza é rainha. Esqueçamos os Nabateus por uns momentos e concentremo-nos em absorver a calma e grandiosidade (natural) do local.
"A melhor vista de Petra." - pode ler-se em diversas indicações improvisadas. Confuso perceber qual será a melhor, mas são todas impressionantes. Apetece ficar mais um bocado. Aquecida pelos raios de sol (que brilha sempre). Mas espera-nos ainda uma longa viagem de regresso, logo é preciso partir. É o problema de Petra, obriga-nos a voltar sempre ao mesmo sítio, a repetir os lugares, o que acaba por cansar desnecessariamente. Mas com tanta beleza à volta, será isso verdadeiramente importante?

A rua principal, com os túmulos ao fundo

Subida para mosteiro, com os omnipresentes burros

Cores de Petra

Os túmulos ao fundo na subida para o Mosteiro

O Mosteiro!

"A melhor vista de Petra" - por aqui

Um chá na montanha

Petra ao entardecer

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 2, ou a primeira abordagem a Petra

O deserto foi reparador. Uma noite bem dormida na escuridão profunda. Mesmo com o silêncio avassalador que por vezes perturba. Não o senti. Talvez devido à presença humana nas tendas ao lado. Companhia... Uma companhia alienada, que não me diz nada, mas que me permite aceitar a solidão. Não sei se é esse o nome apropriado para o sentimento que me invade o peito. É uma mistura de vazio transbordado. Coração vazio e cheio ao mesmo tempo. Considerações filosóficas de portuguesa nostálgica, sem dúvida. A imensidão das paisagens desperta isso em mim (talvez por isso goste tanto da aridez?).
Dizemos adeus a Wadi Rum e ao vermelho do seu deserto para seguirmos viagem, rumo a norte, e ao ponto mais emblemático da Jordânia: Petra. Essa cidade milenar que fascina meio mundo. Ainda na véspera de viajar passava um documentário na televisão sobre as razões pelas quais Petra terá sido abandonada.
Chegamos a Wadi Musa (o Vale de Moisés) depois de uma interessante viagem de táxi, em que o nosso motorista nos comprou batatas fritas e sumo. Que é um povo hospitaleiro, não se pode dizer o contrário! Às vezes um bocado "em cima" de nós, mas preocupados em receber bem. Onde estão as mulheres, continuo sem perceber. Em casa a cuidar dos filhos? Todas elas? É preciso explorar um pouco mais do país para ter uma ideia. Wadi Musa é caótica e pouco interessante. Muito trânsito, muito assédio um pouco por todo o lado: taxistas, comerciantes, restaurantes, é quase impossível andar dois metros sem que nos seja "oferecido" algo. Ao melhor preço, está claro.
O hotel é simpático e simples, mas ainda não é desta que consigo pôr o banho em dia. Apenas um duche para refrescar o corpo, que a água fria não permite maiores aventuras. Depois de instalados e "comidos", vamos procurar Petra. Que encontramos no vale, como seria de esperar (talvez?). Claro que abundam as lojas de souvenirs à entrada e toda uma panóplia de balcões para comprar bilhetes, marcar visitas guiadas, ou simplesmente pedir a palavra-passe da WiFi do local. Nitidamente modernices. A mostrar-nos que Petra não é um sítio para procurar reclusão. Ao seguirmos o caminho que nos conduz à cidade, começamos a encontrar os primeiros indícios da mesma: djinns (ou pedras-deus), uma primeira construção escavada na rocha. Começam os disparos da máquina e o passo vai lento. Um pouco mais à frente, entramos no Siq, esse canyon maravilhoso toldado pelas águas, que nos conduz por curvas e contra-curvas, as quais revelam inscrições nas paredes das rochas, nichos para figuras divinas, arbustos que crescem por entre a aridez cor-de-laranja. Ah, as cores! Que mudam com a luz do dia, qual caleidoscópio natural.
Caminhando pelo Siq, enfrentando as multidões já de regresso (já começa a ser tarde), anseio pelo momento em que desembocará no Tesouro, evocando assim o meu imaginário de criança ao ver Indiana Jones e a Última Cruzada. O momento chega e tem algo de anti-apoteótico (será assim com todo os momentos grandemente ansiados?). A multidão que se acumula na praça, vendedores ambulantes, condutores de carroças que transportam a população mais sénior (maioritariamente), o café ali ao lado... E os flashes. Porquê os flashes? (Alguém deveria explicar às pessoas que não vale de nada utilizar flash para tirar fotografias a média/longa distância.) Ainda que anti-apoteótico, é um momento único. Para me remeter ao silêncio e apenas observar. Absorver. Imaginar.
Como que num sonho, continuamos um pouco mais além, mas rapidamente resolvemos deixar o resto da exploração para amanhã. Petra deixou já uma marca indelével, e é tempo de recolher, até porque mais logo há "Petra by night". Evento muito aconselhado (se bem que um pequeno roubo), que acaba por ser menos do que inicialmente antecipado. Fica a magia de ver as montanhas iluminadas por um quarto crescente encandeante, com velas a iluminar o caminho. E o céu. Um céu maravilhoso, cheio de estrelas. A adicionar à magia do local.

Árvore por entre as rochas do Siq

Carruagem nas ruas do Siq

O Tesouro

O Tesouro à espreita no Siq

Petra by night

Viagem à Suiça do Médio Oriente (aka, Jordânia) - dia 1, ou o deserto de Wadi Rum

Saída de Londres um pouco depois das 17h, voo com alguma turbulência mas bem passado. Vi o filme Interstellar durante o voo, cortesia da Royal Jordanian Airlines. Gostei muito, embora seja um pouco perturbador (Do not go gentle into that good night...). Chegada quase às 23h a Amman, noite escura. Algo confuso perceber para onde me devo dirigir - no final de contas, tive que sair do aeroporto e voltar a entrar pela zona das partidas. Uma sala de espera pobre, sem muito para preencher as horas da madrugada que aqui terei que passar até o voo que me há-de levar até Aqaba. Nem mesmo um banco corrido para descansar o corpo. Noite aos soluços, os olhos a renderem-se ao cansaço de vez em quando. E a madrugada chega finalmente, e com ela o meu voo. Que dura um instante. Encontro com a C. e o M. no aeroporto e daí  para Wadi Rum de táxi. Que cenário fantástico! A aridez do terreno, as montanhas... tudo tão diferente. A recepção pelo nosso anfitrião Mohammed é óptima, com chá partilhado com os outros viajantes. As nossas mochilas seguem para o acampamento, enquanto nós embarcamos na viagem de jipe pelo deserto de Wadi Rum, acompanhados de dois alemães, não muito entusiasmados com a coisa toda. Mas estamos nós! Que experiência interessante, cativante, diferente! Ainda que se vejam bastantes turistas nos diversos sítios que visitamos (maioritariamente relacionados com o Lawrence da Arábia). A experiência do dia culmina com uma descida de uma duna de areia com uma prancha (vulgo sandboarding), algo que adorei e me enche de adrenalina. A subida à ponte (natural, formada por rochas) é também muito aventureira. Gosto da sensação quase infantil que me inunda quando trepo calhaus! Faz-me realmente lembrar a minha infância.

As pessoas são simpáticas e prestáveis, pelo que pude ver até agora. Homens, porque quase ainda não vi por cá mulheres. Eles conduzem, preparam quartos, cozinham... não vejo para já mãos femininas no processo. Será uma sociedade assim tão patriarcal? Fico na dúvida. Até explorar outras andanças.

Dormimos no deserto, em tendas especialmente preparadas para o efeito. Qual acampamento beduíno. Chegamos ao final da tarde, mesmo a tempo de partilhar um chá e ver o pôr-do-sol. Do cimo do penedo, para ter uma vista mais abrangente. É um cenário único. A vastidão é tal que me deixa claustrofóbica. Como se fosse demasiado ar para respirar (será provavelmente mais correcto chamar-lhe agorafobia...). A terra fica ainda mais vermelha, as cores intensificadas pela luz do entardever. As fotografias não fazem justiça ao momento. É preciso gravá-lo na retina. Para mais tarde recordar.
O jantar, na tenda comunal, é maravilhoso. Ou talvez seja da fome! Acabo a devorar dois pratos de salada, baba ganoush, assado de frango (cozinhado à maneira beduína, num forno escavado dentro da areia), arroz - tudo fresquíssimo, cheio de sabor, quase acabo a lamber os dedos. E ainda há espaço para dois pedaços de doce. É oficial: não me reconheço. A privação de sono deve fazer destas coisas. Ou o deserto.

Pouco passa das 20h e preparo-me para dormir. O meu corpo tenta resistir. Talvez seja da escuridão profunda que tanto me perturba. Mas a lua brilha alto e o céu tem mais estrelas do que alguma vez poderei contar. Por isso, Rita, descansa. São horas de assimilar o dia e deixar o corpo descansar. Finalmente.

Deserto de Wadi Rum, visto da nascente de Lawrence da Árabia (mas não a verdadeira)

Deserto de Wadi Rum

Deserto de Wadi Rum - o nosso acampamento

Pôr-do-sol em Wadi Rum

Pequenas histórias de vidas infames

https://pictures.abebooks.com/isbn/9780312421540-uk-300.jpgTêm sido bons dias para leitura. As férias assim o proporcionam, o que me deixa muito feliz.
Acabei de ler um outro livro de contos, cuja leitura havia começado há já algum tempo, muito diferentes daqueles que mencionei na minha última nota.
Este livro, cujo título Pequenas Infâmias de alguma forma lança algum mistério em relação ao seu conteúdo, é uma obra do escritor grego Panos Karnezis e foi-me oferecido pelos meus amigos gregos (como fará algum sentido).
As histórias, essas, são muito engraçadas e giram sempre à volta de uma pequena vila algures perdida no bucolismo grego. Não é de imediato que se percebe que as histórias estão interligadas, mas há momentos de sobreposições bastante óbvias que tornam toda a obra bastante interessante de ler. Por norma abordam universos caricatos, personagens tipicamente perdidas numa imaginação de outras eras. Soa a antigo, muito embora seja uma obra recente de um autor ainda jovem. O que, mais uma vez, é um ponto de interesse. Não sei se há tradução em Português, mas se sim, dêem uma vista de olhos. Vale a pena.

Das pertenças


Um dos títulos mais sugestivos que li até hoje. No one belongs here more than you. Ninguém pertence a este sítio mais do que tu.
Acima de tudo, irónico. Não me sinto pertencer de todo a esta realidade. Mas falemos do livro. Presente de aniversário abandonado na minha secretária, deixou-me confusa por uns momentos. Mensagem subliminar? Livro de contos, histórias pequenas (ou nem tanto) de conteúdo diversificado, mas talvez com um ponto em comum - a estranheza das suas personagens. Pertencem? Não pertencem? Ninguém pertence aqui mais do que elas. Portanto, para mim, essa é a mensagem do livro. A pertença é uma falsa questão e nada tem a ver com os trâmites sociais em que nos inserimos. É, provavelmente, uma questão de atitude. E, talvez por isso, haja pessoas que não pertencem a lado algum. Como este sentimento que me assombra.
O livro, esse, é muito interessante. Provocador. Feminino. Pertence em definitivo a este blogue.

Mais divagações

Estou cansada e isso deixa-me triste. Vulnerável. Tem sido um regresso ao trabalho bastante ocupado - o que é muito bom, sem enganos nesta parte. Mas ajuda ao cansaço. Isso e as noites mal dormidas. Com sonhos que me assombram de tal forma que repercutem no meu cérebro pelo dia fora. Sempre o mesmo tema... Estou cansada. Ansiosa com a semana que se avizinha. Receosa do que ela trará. Tento focar o meu pensamento na semana a seguir, de férias, de amigos. Que falta me fazem esses. Tanta que já nem a consigo sentir. O meu coração está anestesiado, hibernado no frio desta condição. À espera do calor de outras realidades.

Adivinha quem voltou

Não, este apontamento não é sobre os Da Weasel.

Faço hoje quatro anos de Londres. Quatro anos desde aquele domingo que começou cedo, com um voo madrugador, até uma cidade quase desconhecida. Relembro a estranheza. A sensação de desconforto. O que são estas ruas? Quem são estas pessoas? Quatro anos depois, não vejo estranheza. Pelo menos, não a estranheza do desconhecido. A sensação de não-pertença, essa, ainda está lá. Independentemente dos acontecimentos. Independentemente das pessoas a quem me ligo / tento ligar. É um esforço inglório. Páro de tentar. Como é que diz aquela canção dos Smashing Pumpkins? "The more you try, the less you fit"? Já não me recordo bem. Mas acho que é algo desse género. O Billy Corgan é que sabe. Se calhar também viveu em Londres. Ele é que percebe dessas coisas de pertencer. Há pessoas que nunca pertencem. Para parafrasear a minha avó paterna - não são deste mundo. Ela só se enganou na neta a quem se referia. Mas se calhar eu fui uma criança muito mais simples do que este adulto em que me tornei.

Com este apontamento algo sombrio de fim de dia (de fim da semana), vos deixo. Hoje é sexta-feira e não domingo, bem mais simpático para "festejar". E o fim de semana está aí, cheio de possibilidades. Menos de sol, que isso é coisa rara cá por estas bandas.
Não prometo escrever para breve. Tenho pensado muito nisso e nunca concretizado. Por isso mais vale manter-me afastada das promessas. Faço melhor figura. Com a esperança que a vontade vá aparecendo.

De partida...


Fica a pequena nota para vos dizer que estou de partida. Para o outro lado do Mundo. Para a aventura. De coração aberto e cabeça a precisar de ser esvaziada.

Desejem-me sorte.



Crónica da semana (a sexta), ou a influência da privação de sono

Resolvo escrever ao final do dia. Segunda-feira, regressei esta manhã (ou devo dizer madrugada?) do Porto, depois de um fim-de-semana de família e comezainas. Já não ia ao Porto, ou a Cinfães, desde Janeiro, altura em que fui exercer o meu direito de voto nas eleições presidenciais. Fazendo um exercício mental, creio que foi o período mais longo que alguma vez passei sem ir à minha terra natal. Talvez esteja a exagerar (sou um bocado dada a isso), mas tenho que admitir que não me lembro de outra situação semelhante.
Como todos os fins de semana de viagens, foi curto. Passou num ápice e apenas deu para aguçar as saudades. Porque a cada momento partilhado, mas breve, parece que as saudades aumentam, em vez de diminuir. Não compreendo o fenómeno, talvez alguém me possa ajudar. É impossível multiplicar o tempo, ou as ocasiões, para poder celebrar em família, com toda a disposição, mas poder também falar com cada membro individualmente, partilhar alegrias e angústias. Sei que já devia estar habituada, mas não. Lá no fundo, sou uma alma teimosa e que se recusa a aceitar o status quo só porque é assim a realidade... Se bem que, volta e meia, me tenha que render às evidências.
Considerações à parte, a família Resende lá esteve reunida na Casa do Pinheiro para dar as boas-vindas ao Outono com uma competição cheia de petiscos. Comeu-se muito e bem, e a comida foi suficiente para duas refeições de mais de 20 pessoas. A provar que somos uns alarves... a cozinhar. Os dias estiveram tipicamente outonais (a honrar a ocasião), frescos mas com sol. A dourar as cores. Que saudades que tinha de me sentar no pátio ao sol da tarde, a contemplar a água a correr na fonte... Bem, já perceberam que o espírito do momento está nostálgico. O dia vai longo e não sei muito bem se escrever é uma boa ideia, mas continuo. Começo a sentir os efeitos da privação de sono, e quero acreditar que me tornam mais inspirada. Aproveito a boleia.

Começo a sentir-me um bocadinho mais habituada ao novo local de trabalho. Ainda relutante, mas mais resignada. Ainda assim, não o sinto como meu. Talvez deva arranjar algum estratagema para estabelecer território, qual felino a urinar pelos cantos! Não se preocupem que (ainda) não perdi o juízo. Para além de que seria logisticamente complicado.
No fim-de-semana passado houve mais uma caminhada. 25Km no sudoeste de Londres, por entre veredas de urze púrpura. Com alguns enganos, um pouco de chuva, e os últimos Kms percorridos na escuridão. Uma aventura, portanto. As pernas vão habituando-se à quilometragem, mas o que me preocupa são as costas (e habituar-me a carregar peso). Tenho que regressar ao ginásio (em interregno desde a mudança de instituto), mas a preguiça toma conta de mim e continuo sem fazer nada nessa direcção. Sinto em mim, novamente, aquela ansiedade quase angústia de ter tanto que fazer que só me apetece transformar-me em avestruz. Ainda agora resolvi enfrentar uma dessas angústias, só para descobrir que a máquina fotográfica que tencionava comprar está esgotada... Mensagem divina para começar a tratar do que realmente preciso?

Acabei de ler Boris Vian (que havia mencionado no último post), e li também o quarto volume da manga que me anda a chegar de França. O senhor Vian é estranho... rigorosamente nada a ver com o outro livro que li dele, o famoso A Espuma dos Dias. Muito gráfico, sem dúvida, deu para perceber o porquê de ter sido uma obra tão polémica na altura da sua edição. Ainda hoje, provavelmente, o seria. Estou agora em modo tábua-rasa, no momento de decisão sobre o que ler a seguir. Livros não faltam, ainda agora trouxe um de Portugal, presente do meu querido padrinho. Talvez pegue mesmo nesse, uma obra de valter hugo mãe, escritor que me deixa curiosa. 

Vou terminar por aqui. São quase 20h e quero ir para casa. Peço desculpa por não ter dito nada sobre a minha ida ao país (ou por não ter combinado nada), mas já sabia de antemão que não haveria tempo para isso. É a dita condição de emigrante, sobre a qual já me pronunciei por cá... As pouco mais de 48h de um fim-de-semana são incrivelmente curtas para todos os desejos que o meu coração abriga.

Crónica da semana (a quinta), ou a das mudanças

Pois é, pois é, mais uns tempos sem escrever. Perdoem-me a falta, mas houve pouco tempo nos últimos fins de semana, entre uma ida ao rectângulo e umas passeatas por cá. Aqui estou eu de volta para vos entreter por um bocadinho.

Começo a escrever-vos no momento em que o relógio do computador me diz que são 19h24. São boas horas de ir para casa, algo que farei depois da escrita. Estou na minha segunda semana no novo instituto, para onde nos mudámos na semana passada, e o que vos posso dizer é que é estranho. Não acho que seja propriamente resistente a mudanças (até as procuro com alguma assiduidade), mas esta está definitivamente a custar - não porque não esteja a gostar, mas porque estou com dificuldade em sentir este como o meu novo local de trabalho. É tudo novo, super sofisticado (ou a tentar ser), caras novas a passear-se pelos corredores. Mas não me entusiasma. Nem sequer os omnipresentes sofás, espalhados por todos os cantos, me fazem sentir o ambiente como convidativo. Mais parece um centro comercial do que um local de trabalho. Mas adiante. Talvez me esteja a faltar voltar à bancada, pipetar um bocado e tudo fará sentido novamente! Vamos fazer figas para que isso aconteça, porque esta sensação de não pertencer a este sítio está a deixar-me vagamente nervosa...

Ir a Portugal a um congresso foi também uma experiência algo estranha, especialmente ali no Estoril, bem no meio dessa área que foi a minha área de influência durante um bom período de tempo. O meu cérebro sentiu-se particularmente confuso com a alternância entre Inglês e Português, mas foi interessante e sem dúvida muito bom poder matar saudades da família. Desta vez foi mesmo só da família, não houve mais nada para ninguém. Mas daqui a nada vou novamente ao rectângulo, desta vez à zona norte, para matar as saudades todas que me vão preenchendo há já 8 meses... Estar fora do país, ou esta condição de emigrante, não é algo de fácil adaptação. É difícil gerir expectativas (minhas e exteriores), o tempo é tão curto de cada vez que regresso ao país que quase sinto precisar de uma secretária a tempo inteiro para poder organizar o meu tempo! E às vezes só me apetece não complicar, não esforçar e apenas relaxar, aproveitando o pouco tempo que passo por lá. Consciente de que, quando não faço o esforço para ver aqueles que me estão mais perto do coração, certamente passarão mais dois ou três meses até que surja nova oportunidade para tal. Mais de três anos passaram desde que saí de Portugal e ainda não me consegui adaptar a esta minha condição. Será que algum dia acontecerá? Será que deixarei de me sentir neste limbo, nem cá, nem lá?...

Reflexões à parte, parece que o meu bom momento de leitura veio para ficar. Acabei de ler O Jogador, de Dostoievski, que já havia mencionado por cá. Leitura interessante, cativante, mas que não conseguiu ainda convencer-me sobre a reputação do autor. Sei que é a minha primeira abordagem, e talvez a tradução não tenha ajudado. Não desistirei por aqui, porque a minha curiosidade é mais forte (quando me dizem que é um dos melhores escritores a descrever a mente humana). De momento dedico-me a Boris Vian, com uma obra muito polémica e que está a puxar muito pelo meu Francês. Diverte-me, sem dúvida.
Continuam também as caminhadas, com o objectivo primordial de fortalecer pernas e costas. No passado domingo foi vez de rumar a sul até às Seven Sisters (que também já mencionei por cá), numa caminhada longa mas muito bonita. Este país tem realmente algumas coisas boas...

São agora 19h59 e digo-vos adeus. Horas de deixar esta gaiola dourada e ir ver a vida lá fora.
Até breve.

E agora algo completamente diferente... Snowdonia e arredores







Crónica da semana (a quarta), quando todos percebemos que estas crónicas não s(er)ão semanais

É preciso enfrentar a realidade e admitir para mim mesma que talvez não vá conseguir manter a periodicidade destas crónicas em uma vez por semana. Tento escrever ao fim-de-semana, por ser por excelência uma altura em que tenho maior disponibilidade mental, mas por vezes mesmo ao fim-de-semana é difícil encontrar um tão desejado momento de calma e serenidade para me sentar ao computador e escrever.

Hoje é domingo e aqui me encontro, sentada no sofá com o computador no colo e a televisão ligada à minha frente. Lá fora o tempo está cinzento, e assim tem estado todo o fim-de-semana, a lembrar-nos que, daqui a nada, está aí o Outono. Não gosto deste tempo, deixa-me ainda mais melancólica do que o costume. Isso e o facto de ter passado quase todo o fim-de-semana a trabalhar. Sinto que foi um fim-de-semana desperdiçado, não aprendi nada nem vi nada de novo. Mas talvez esta seja apenas uma reacção ao fim-de-semana passado, prolongado cá por estas bandas, em que fui ao País de Gales, onde caminhei muito e lavei os olhos em paisagens desconhecidas. Foi um fim-de-semana intenso e proveitoso, daqueles que depois nos deixa com um certo vazio no peito, como que a ressacar de um excesso de sentimentos bons. Andei assim durante a semana, e assim continuei quando o fim-de-semana chegou. E agora que ele está quase no fim, assim continuo a sentir-me. Na obscuridade.
Para além dos passeios de exploração da ilha (qual Serpa Pinto), também houve regresso aos concertos. Uma estreia em termos de sala de espectáculos, e que bela estreia. A Union Chapel, em Islington, é, como o próprio nome indica, uma capela/igreja que, para além de serviços religiosos, alberga também ocasionalmente concertos e outro tipo de espectáculos. O espaço é muito bonito, intimista, com toda a fachada interna revestida a madeira, boa acústica. O concerto, esse, foi de um velho conhecido - Sam Beam (aka Iron & Wine) - acompanhado de Jesca Hoop, com quem gravou um álbum no início deste ano. Não conhecia o álbum, e as canções que tocaram de Iron & Wine não reconheci (e eu que achava ter um bom conhecimento de causa). Mas isso não foi particularmente importante porque gostei muito do concerto e das músicas que tocaram. Foi daqueles que volta e meia nos põem um sorriso nos lábios.
Tirando isso, actividades culturais não têm sido muitas. Continuo a ler O Jogador, de Dostoyevsky, edição de mil novecentos e troca o passo, que me está a deixar curiosa. Ao cinema não tenho ido, mas tenho visto alguns filmes por casa (de assinalar dois da realizadora Kelly Reichardt - Wendy and Lucy, e Meek's Cutoff). Agora preparo-me psicologicamente para rumar de volta ao rectângulo, desta vez por motivos profissionais. Isto por cá vai continuando com muitos altos e baixos...

Crónica da semana (a terceira), ou as manhas do amuo

À terceira já começa a atrasar. É muito bom ter fins-de-semana repletos de actividades e socialização, mas depois a escrita fica para trás e não há tempo nem disponibilidade emocional para me dedicar a ela um bocadinho. Espero que não se torne um hábito (a falta de tempo).

Chegam-me aos ouvidos (ou, neste caso, aos olhos) palavras de regozijo perante a minha recém-adquirida maturidade e atitude perante a vida. Agradeço o incentivo, é algo para a qual muito me tenho esforçado, tenho que admitir que não é algo que venha assim naturalmente. De vez em quando, mais comummente do que gostaria, os amuos tomam conta do humor e parece não haver nada a fazer. Nessas alturas respiro fundo, conto até quinhentos (pelo menos), tento focar-me noutros assuntos que não aqueles que me consomem o espírito. Difícil... Tem sido um pouco assim na última semana, com altos e baixos e situações problemáticas, na minha cabeça e à volta dela também. Se, por um lado, sempre gostei de estar na posição de confidente, também é verdade que por vezes é uma posição um bocadinho ingrata, principalmente quando é difícil ajudar os que temos pela frente. Relembra a frustração de tantas situações sobre as quais não tenho qualquer controlo.
Felizmente, os momentos são isso mesmo, fugidios. E os amuos vêm e não ficam, algo que me deixa feliz. Neste último fim-de-semana fui a Berlim, matar saudades dos amigos e da cidade. A cada vez que lá vou, repete-se o sentimento. Sinto que estou em casa. Também esse sentimento é fugidio, bem sei. Como sei que, se por lá continuasse, com certeza que muito me queixaria dos típicos problemas de primeiro mundo, como a omnipresente gentrificação das cidades. Na realidade, não vivo lá, e como tal mantém-se o sentimento de enamoramento. Deixem-me assim, sorriam com benevolência. Todos nós temos os nossos quês, nem sempre fáceis de explicar por palavras.
Para além de juízo, parece que também consegui reganhar um pouco, ainda que momentaneamente (porquê esta obsessão com o momento?...), o meu gosto pela leitura. Li mais um livro, em cerca de duas semanas! The Wasp Factory, de Iain Banks, livro perturbado mais do que perturbador, muito interessante e cativante de uma forma fora do comum. Para os que não sejam demasiado sensíveis, aconselho vivamente a leitura. Espero que haja edição em português mas, para ser sincera, não sei.

Assim acontece por Londres. Montanhas-russas de emoções, irritações e outras demais palavras terminadas em -ões. Nada de malícia. Os amuos vão e vêm e eu cá me vou aguentando. Atrasando-me na escrita, que não gosto. Mas aproveitando pequenos momentos, como este fim de dia quente (diz que estão 30ºC lá fora, daqui a nada já confirmo), para vos deixar umas palavras. Espero que vos encontrem bem.

Crónica da semana (a segunda), ou a "magia" dos 34


Eu bem disse que quando voltasse a escrever neste blogue já o faria do alto dos meus 34 anos. E assim acontece (como diria o Carlos Pinto Coelho, nos idos tempos felizes da RTP2...). 
Quem me conhece um bocadinho sabe que dou importância a estas coisas dos aniversários. Sou uma pessoa de pormenores, de pequenas coisas, não de grandes festas ou manifestações. O que, na maioria das ocasiões, só torna as coisas um pouco mais complicadas. Mas os 34 lá chegaram, iluminados pelo sol inglês (que de vez em quando decide dar um ar da sua graça), mais calmos do que é costume nestes dias (será a maturidade a atingir-me?...). Houve direito a passeio em fim-de-semana de aniversário, para explorar a costa inglesa e uma região que há muitos anos povoava o meu imaginário: a Cornualha. Não saí decepcionada, não fosse dois acontecimentos (não relacionados) que marcaram o fim-de-semana de forma bastante distinta - primeiro, perder a minha máquina fotográfica no dia do meu aniversário; e segundo ter chovido continuamente durante o resto do tempo. O primeiro acontecimento marcou-me muito mais profundamente que o segundo, como seria de esperar, e quase estragou irremediavelmente o momento. Mas, a provar que estou uma miúda muito crescida e madura, lá consegui aceitar o provérbio que diz que o que não tem remédio, remediado está e perceber que estas coisas acontecem, mesmo que nos deixem tristes. Haverá mais máquinas fotográficas que, se tudo correr bem, não perderei. Mas, por uns momentos largos, tive que lidar com a frustração de algo que fugiu completamente ao meu controlo. Talvez tenha sido esse o ensinamento dos 34... agora que penso nisso com mais atenção, quase que parece um desígnio divino para me fazer libertar um bocadinho das minhas ansiedades e tentativas de controlar todos os pequeninos aspectos da minha vida. Acho que vou escolher essa interpretação e tentar abraçar esse ensinamento o mais profundamente possível.
Ensinamentos à parte, esta coisa dos aniversários traz sempre sentimentos mistos. Por um lado é um dia em que nos tornamos o centro das atenções, mas por vezes as atenções não vêm de onde desejamos. Porque é que fazemos isso? Porque é que nos agarramos ao que não temos em vez de ficar felizes por aquilo que nos é oferecido? Também tive um pouco desses momentos neste aniversário, mas bastante menos do que em anos anteriores. Houve muitas pessoas que não se lembraram, como seria de esperar, embora umas doam mais do que outras. Mas houve tanto carinho vindo de tantos lados! Postais que chegaram com quase uma semana de antecedência, encomendas, telefonemas de vozes distantes, mensagens e felicitações sem conta. Por isso, fica aqui um agradecimento oficial a amigos e família que, através da sua presença ou não, contribuíram para um dia feliz. E porque a vida não se faz só de aniversários, nem pouco mais ou menos, reitero igualmente a importância que têm para lá destes dias felizes.

E pronto, os 34 aconteceram e estão para ficar. Para já parecem-me bem.

Crónica da semana (a primeira), e um pequeno resumo

Voltar à escrita é aparentemente mais difícil do que estava à espera. Agradeço desde já as notas de incentivo, é muito bom saber que existem aí desse lado pessoas que gostam de ler as minhas deambulações... Obrigada. Infelizmente, sinto-me um bocado perra nestas andanças, desabituei-me deste exercício. Mas vamos lá.
A última semana trouxe a Londres aquilo que a maioria de vocês está farta de sentir na pele: calor. Dias solarengos, temperaturas altas, até parece que por cá também há Verão. Espera, estamos no hemisfério norte, por isso devia mesmo ser Verão... Nestas alturas os parques repletam-se de gente, principalmente à hora de almoço, e eu não sou diferente na minha ânsia por um pouco de sol. De repente, as pausas de almoço tornaram-se em exercícios de "trabalhar para o bronze". Não que algum dia vá lá chegar... Uma semana em Portugal não chegou, por isso há que render-me às evidências (e à herança genética).
Por norma, acho que o tempo bom põe as pessoas bem dispostas. De bem com a vida. É verdade que tenho sido atingida por um pouco dessa boa disposição, mas não consigo deixar para trás a insatisfação de viver num país onde nunca se sabe o que o dia de amanhã vai trazer, em termos meteorológicos. Pensarão vocês, talvez com razão, que é sempre cinzento, por isso qual é a dúvida? Apesar de já lá irem quase 3 anos, ainda tenho ilusões de que é possível haver Verão por estas bandas... o meu optimismo recusa a render-se.
Então, por Londres tem sido assim. Traumatizada por não ter mais férias este Verão (as habituais perguntas sobre férias tornaram-se um tabu e quase sempre desencadeiam uma onda de tristeza), a tentar planear fins-de-semana que de alguma forma mitiguem esse facto. Tenho lido mais, o que me deixa feliz. No último mês li dois livros, e recomendo ambos. Primeiro, A Shepherd's Life de James Rebanks; e ontem acabei de ler Things Fall Apart, de Chinua Achebe. Estilos muito diferentes - o primeiro escrito por um pastor inglês sobre a sua história de vida; o segundo uma obra importante da literatura africana negra, sobre as disputas entre clãs e a administração britânica na Nigéria. Tenho que falar também na omnipresente música (ou não fosse ela uma das partes mais importantes do meu dia-a-dia). Este ano tem sido o ano do regresso ao passado. Consegui ver, desde o início do ano, três das minhas bandas mais favoritas de todos os tempos - em Fevereiro Massive Attack aqui em Londres, e agora em Julho Radiohead em Lisboa e Sigur Rós novamente aqui em Londres. Claro que a minha opinião é parcial, mas foram três momentos mágicos, a reiterar o facto de todas três bandas serem fantásticas, tanto no seu portofólio como nas suas capacidades de execução ao vivo. Estou de alma cheia e não preciso de ver mais nada até ao próximo ano! (mas claro que haverá mais concertos nos entretantos...)
Fica, então, aqui este pequeno resumo das minhas andanças, embora não seja bem este o ênfase que quero dar a este espaço... Aproxima-se a passos largos o meu aniversário, por isso da próxima vez que falar convosco será provavelmente já do alto dos meus 34 anos. Talvez notem uma maior maturidade... ou talvez não.
Escrevi umas notas aquando das minhas férias em Portugal no início do mês, talvez as partilhe por aqui, havendo tempo e vontade. Nos entretantos, deixem as vossas opiniões - gostam mais deste formato, do antigo, quais são os assuntos sobre os quais mais gostam de ler? Ah, lembrei-me agora que talvez devesse fazer uma pequena reflexão sobre o referendo à saída da UE que aconteceu aqui no Reino Unido... vou apontar para a próxima "crónica".

Até breve. (Hoje debaixo de chuva)

O regresso

É verdade. Estou de regresso. Não sei quem me irá ler desse lado, depois de mais de um ano de ausência. Mas finalmente percebi que me faz falta escrever e que este era, por definição, o meu espaço de escrita. Por isso aqui retorno.
No entanto, espero fazê-lo num formato um bocadinho diferente. Não me sinto com vontade para enumerar as minhas desventuras culturais e afins, por isso proponho-me a um exercício um pouco mais pessoal. A ideia é escrever algo como uma crónica semanal, reflectiva sobre os acontecimentos e sentimentos da semana. Algo que seja mais eu.

Por agora, fica o aviso à navegação. Para breve, mais algumas palavras.

Inventing Impressionism

Tenho a mania de dizer que há duas coisas boas de viver em Londres: os concertos e as exposições. Será fácil de perceber isso por aquilo que vou escrevendo por aqui... Desta vez, quero falar um pouco da última exposição que vi por cá, e que teve como mote homenagear a corrente Impressionista e aquele que foi o seu grande impulsionador, o comerciante de arte francês Paul Durand-Ruel. Através de práticas até então nunca utilizadas, Durand-Ruel financiou produção artística a nomes como Monet, Renoir ou Manet. Comprou obras em largas quantidades, pagou salários mensais aos artistas... realmente um visionário.
Esta exposição engloba assim um conjunto de obras de alguma forma ligadas a Durand-Ruel, desde retratos por Renoir até decorações feitas por Monet na sua casa, passando claro está por obras por ele comercializadas. Uma exposição vasta, bem organizada (acompanhada de um livro com contextualizações das obras expostas) e, acima de tudo, cheia de beleza. O Impressionismo é uma das minhas correntes favoritas em termos de pintura, por isso foi uma daquelas vezes em que fiquei de alma cheia.