2013

Sendo hoje o último dia de 2013, segundo o calendário que seguimos, aproveito o momento para fazer alguma reflexão sobre o ano que agora termina.

2013 foi um ano repleto de acontecimentos e mudanças. 3 meses em Portugal, 4 e 1/2 meses em Berlim, 4 e 1/2 meses em Londres. Muito saltitei de canto para esquina este ano. Tal facto trouxe consigo inúmeras experiências, boas e más. Conheci muitas pessoas novas, espero ter feito algumas amizades. Ao mesmo tempo, distanciei-me de pessoas muito próximas no passado. A distância física traz, infelizmente, distância emocional em muitos casos. Com isso, sofri bastante. Como também sofri com as provações que 2013 insistiu em trazer. Foi um ano de sustos, um ano de perdas. Mas também o ano do nascimento do meu segundo sobrinho, um acontecimento maravilhoso.
2013 foi um ano rico, disso não haja dúvidas. Mas muito difícil. 

A época de Natal em Portugal, que para mim terminou ontem, fez-me perceber diversas coisas. Por exemplo, parece-me que finalmente me dei conta que sou uma emigrante. Ainda mais expatriada do que antes, sou agora um pouco estranha ao país onde nasci. Parece-me que não pertenço a lado algum... No entanto, foi muito bom sentir o carinho de todos aqueles que, num esforço colectivo, disponibilizaram um pouco do seu tempo para estar comigo. Apesar das correrias entre Carcavelos, Lisboa, Porto, Cinfães e Coimbra, foi muito bom ver caras familiares. E sentir que o carinho e amizade poderão, eventualmente, sobreviver à distância. 

Termino, então, 2013 com a tentativa de preencher um vazio que teima em reinar no meu peito. Procuro focar-me nos momentos que venho de viver, mas também no que o novo ano me reservará - obviamente na esperança de que seja um ano bom e mais calmo. São, igualmente, esses os meus votos para aqueles que lêem estas linhas.

Em 2014 espero abraçar com mais convicção esta que é a minha nova etapa, profissional e pessoal. Descobrir Londres e aprender a gostar mais da cidade. Fazer novos amigos e usufruir da companhia dos velhos. Conhecer novos sítios. E, nas entrelinhas, ir sendo feliz com esta vida que é a minha.

"The Love Song of R. Buckminster Fuller" com música ambiente dos Yo La Tengo

Pouco tempo depois do concerto de Archie Shepp, rumei novamente até ao Barbican. Desta vez o programa foi um pouco diferente, não se tratou propriamente de um concerto, mas do visionamento de um documentário sobre R. Buckminster Fuller, musicado ao vivo pelos Yo La Tengo (os quais vi pela primeira vez no passado mês de Março). A ideia pareceu-me interessante, mesmo não sabendo quem era esse tal R. Buckminster Fuller.
Buckminster Fuller foi, acima de tudo, um visionário. Acho que esse adjectivo lhe faz jus. Nitidamente obsessivo-compulsivo, o senhor resolveu guardar em arquivo tudo, mas literalmente tudo, o que descrevesse os seus dias - notas, recibos, fotografias, etc. E fez isto durante mais de 50 anos, se não estou em erro. Foi precisamente esse acervo que permitiu a Sam Green realizar este documentário, adequadamente intitulado "The love song of R. Buckminster Fuller". E com isto tudo, ainda não disse o que o senhor fazia. As suas maiores obras foram, provavelmente, em arquitectura, mas não a ela limitadas. Buckminster Fuller desenhou, por exemplo, a mundialmente famosa cúpula geodésica (que se pode ver na fotografia). Para além disso, o senhor foi um inventor, com mais de 25 patentes certificadas. Interessante foi também ver/ouvir os Yo La Tengo, completamente relegados para 2º ou 3º plano (talvez se sintam mais à vontade nesse lugar...), executar de forma meticulosa o acompanhamento musical ao documentário. Resultou muito bem, muito embora me sinta vagamente traída porque, no final, de Yo La Tengo houve muito pouco.
Foi muito inspirador assistir a este documentário. Não porque me faça de alguma forma sonhar com outras formas de vida, mas porque é inspirador perceber como a vida de alguém (ou de cada um) percorre uma determinada direcção. No caso deste algo excêntrico senhor, aprendi muito. E isso é sempre um bom programa de domingo à tarde.

Visita com direito a concerto (ou o fim de tarde no Barbican a ouvir Archie Shepp)

Com o ano a chegar ao fim, há que arranjar um pouco de tempo para pôr alguma ordem neste blog. Não posso entrar em 2014 com posts em atraso!

No final de Novembro tive direito a uma outra visita, desta vez de um amigo de longa data. O tempo foi curto, mas deu para um dia bem passado, entre brunch, passeio por Hampstead Heath, chá das cinco, e concerto de jazz ao final do dia. Planeado com bastante antecedência, o concerto de Archie Shepp e a sua Attica Blues Orchestra foi ainda melhor do que antecipado. O saxofonista de 76 anos, figura algo mítica do panorama jazzístico, proporcionou-nos uma verdadeira festa durante cerca de 2 horas - os músicos que o acompanham são fantásticos, o ambiente animadíssimo, e de repente o mundo parece um sítio melhor. A música tem realmente um poder muito grande. Seja de nos emocionar ou de nos transportar no espaço e no tempo, é bom sentir esse poder de vez em quando. Porque a música ainda é capaz de chegar aos recantos mais escusos daquilo a que chamamos alma e porque a alma ainda ressoa com esse toque. E fica feliz.

Por terras de Sua Majestade


Oxford

York


No mês de Novembro passeei um pouco por este país que me acolhe. Primeiro, fui visitar amigos a Oxford, cidade que faz parte do meu imaginário desde o ido ano de 1997 - ano em que me foi oferecida uma agenda com fotografias da cidade. Lindas, por sinal. Desde aí que queria visitar Oxford. Mas por falta de organização mental minha, nunca o tinha feito. Chegou agora o momento. E devo dizer que, apesar do frio e da pouca luz natural, não fiquei desiludida. Senti-me transportada para uma outra época - não é por acaso que os filmes do Harry Potter foram por filmados por aqueles cantos. Há mesmo algo de mágico na atmosfera. O tempo foi pouco e ficou muito para ver, mas isso deixa também a vontade de voltar.
E voltar foi o que fiz na minha segunda visita a York, no norte do país. Rever amigos queridos e uma cidade amorosa. Celebrar aniversários, passear, fazer umas comprinhas... o costume. York é uma cidade pequena, mas muito bonita, recheada de recantos e pastelarias de abrir o apetite a qualquer um (até a mim, que não sou dada a doces)! 
Mas o melhor de tudo é mesmo estar entre amigos. O que, quando se está num país que não é o nosso, se torna ainda mais importante.

Acasos da vida (ou o mais perto que alguma vez estive de ouvir Jeff Buckley ao vivo)

Não há coincidências. Ou a vida é feita de coincidências. Escolham a vossa versão favorita. Eu acredito que, por vezes, há acasos difíceis de explicar. Como o que me levou até ao Southbank Centre numa quinta-feira gelada para ver um concerto de Gary Lucas, guitarrista virtuoso mas algo obscuro, que trabalhou com Jeff Buckley na composição de diversas músicas (algumas incluídas no álbum Grace, outras mais tarde divulgadas com o álbum Songs to no one). Passo a explicar, porque vale a pena (na minha opinião, claro está). 
A Marta, mais do que conhecedora da minha relação de longa data com a música de Jeff Buckley, mostrou-me uma notícia que dava conta de afirmações que Gary Lucas fizera sobre Jeff. Ao ler a notícia, vejo uma pequena nota no final que diz que daí a dois dias Gary Lucas fará um pequeno concerto aqui em Londres em que tocará músicas que escreveu com Jeff, ao mesmo tempo que falará sobre o livro que escreveu, Touched by Grace, sobre o tempo que partilhou com ele. Vou ao site do Southbank Centre, bilhetes ainda disponíveis, pelo que compro logo um. Qual é a parte do acaso, estão vocês provavelmente a perguntar-se por esta altura... É que a Marta não viu nada sobre o concerto e, como tal, não era objectivo dela chamar a minha atenção para tal facto. Não tivesse lido eu a reportagem até ao fim e não saberia da existência do concerto. Mas não foi assim que aconteceu. E agora tenho uma cópia autografada de Touched by Grace na minha mesinha-de-cabeceira. Para além de uns belos arrepios na espinha (e não foi por causa do frio).

Short Term 12

A minha segunda ida ao cinema por terras londrinas levou-me até este filme americano, Short Term 12. Filme da dita cultura indie, cuja acção segue Grace, que trabalha numa associação de apoio a jovens de alguma forma carenciados ou em necessidade (de seu nome Short Term 12, porque os jovens não podem lá ficar mais do que 12 meses). Mas Grace, jovem dedicada à causa que abraçou, tem ela própria problemas para resolver... E assim se vai desenrolando o filme, mostrando uma realidade difícil de forma plausível. Fazendo-nos abrir os olhos para problemas que, se tudo correr bem, nunca teremos que encontrar. Mas, e principalmente, mostrando que até nas condições mais adversas é possível encontrar o amor, construir relações, ser feliz. Para mim, essa é a mensagem do filme. Essa e que vale a pena intervir, agir, abrir os olhos para a vida. Mesmo que ela não seja sempre perfeitinha. 

A primeira visita


O final do mês de Outubro trouxe consigo a minha primeira visita por terras de Sua Majestade. A prima Catarina veio festejar o fim de uma etapa muito importante (parabéns!!!) e aproveitar para descansar um pouco - e arejar, claro está!
O tempo foi curto, já se sabe que um fim de semana para pouco dá. Mas passeamos pelos parques e pelo canal, vimos a guarda real, aprendemos sobre os costumes ingleses em forma de exposição de fotografia, comemos bem e bebemos... muito chá! O tempo deu um ar de sua graça e tanto houve chuva como muito sol - para as fotografias, está tudo controlado. Foi um fim de semana bem aproveitado e que soube muito bem, especialmente pela companhia. Foi muito bom ter família por cá, para poder mostrar parte daquele que é agora o meu canto do mundo. Ficou muito para ver. Claro. Mas esse é o truque que uso para "obrigar" as pessoas a voltar. Agora é esperar para ver se faz efeito.

Tindersticks @ Barbican


Porto, Lisboa, Londres. Depois de 2003 e 2009, chegou a vez de ver os Tindersticks pela terceira vez, quase exactamente 10 anos depois da primeira. Nada é por acaso, poderia dizer. Todos os concertos tiveram circunstâncias muito diferentes, companhias diferentes, idades e maturidades muito diferentes também. Mas há algo na minha relação com esta banda inglesa que se mantém intemporal. Creio que é a capacidade que eles têm de me transmitir emoções (vulgo, emocionar). Como se a voz de Stuart Staples fosse capaz de activar qualquer coisa dentro de mim, algo maior do que o tempo ou as experiências de vida. Talvez por isso tenha sentimentos contraditórios em vê-los ao vivo, porque por vezes é mais fácil fugir ao que se passa cá dentro...
O concerto do passado dia 25 não foi excepção. Houve lágrima no canto do olho e queixo a tremer (engolindo em seco para ninguém notar). Porque as emoções são difíceis ou simplesmente porque é difícil sentir. É uma escolha que tem que se fazer por vezes, esta de enfrentar o passado, as memórias e até nós mesmos. Porque fazem parte de nós.
E assim, apesar do tumulto, é bom perceber como há coisas que não mudam. Como a ressonância dessa voz, Mr. Staples.

E porque devo um comentário à minha colega de casa (que me acompanhou nesta "aventura"), aqui vai uma pequena apreciação em inglês.

10 years after that first time in Porto, back in October 2003, I came to see Tindersticks for the third time. Now in London - different country, different company, a different "me" perhaps. All true, but somethings never really change. And inside me, it is always that same turmoil when I listen to that deep voice that seems to go directly into my brain (and never wanting to leave). And even though the setting was completely different, the feeling was exactly the same when I got to Barbican and listened to those songs that are part of my past, my memories of something that once was. I do not really know if I should be happy or sad about it, but I guess sometimes you do need to step from the numbness and face the world. And this was one of those moments.

Je dis: M

A grande maioria de vocês nunca terá, provavelmente, ouvido falar do cantor francês Matthieu Chedid - mais conhecido pelo seu alter ego -M-. Alguns já terão ouvido músicas dele, mas dificilmente o sabem. Eu sou uma "sortuda" porque há uns bons dez anos atrás conheci este senhor através da prima Carol (nessa altura a viver em Paris) e foi uma espécie de amor-à-primeira-ouvida (e sim, fui pesquisar e esta palavra existe no dicionário!).
Claro que oportunidades para ver este senhor ao vivo não houve muitas - com a excepção de um concerto em Montpellier enquanto lá morava, mas ao qual não consegui ir. Por isso, qual não foi o meu espanto ao descobrir que -M- faria um concerto aqui em Londres! Primeiro ainda estive um pouco indecisa, mas depois lá me decidi a comprar bilhete. Que se lixe a falta de companhia! Esta provou ser uma decisão acertada - o concerto foi muito divertido, ele é realmente um homem do espectáculo. Esteve em palco durante duas horas e só não ficou mais tempo porque não o deixaram (ou, pelo menos, foi isso que disse). Sempre cheio de energia, dentro da personagem (qual espécie de super-homem) que criou aparentemente para superar a sua timidez.
Foi engraçado perceber que era das únicas pessoas não-francesas dentro daquela sala de espectáculos. Tal como foi bom voltar a ouvir essa língua que me é tão querida. E ter a confirmação de que a música é verdadeiramente um veículo poderoso de emoções - há já algum tempo que não me sentia tão bem-disposta.

Filth

A primeira incursão às salas de cinema londrinas levou-me até à adaptação cinematográfica de uma outra obra literária de Irvine Welsh, 17 anos depois de Trainspotting. Falo, portanto, de Filth. Tenho que admitir que não fiz imediatamente a ligação entre os dois filmes... mas as parecenças são, sem dúvida, muitas. Desta vez, temos James McAvoy no papel principal - Bruce Robertson, detective de polícia em Edimburgo. O seu principal objectivo? Ser  promovido a inspector. E é neste momento que começamos a seguir os seus passos, o seu dia-a-dia algo alucinado (o início do filme lembra realmente Trainspotting no seu ritmo). Aos poucos, vamos percebendo que algo não está bem, não bate certo... A forma como se relaciona com colegas e demais pessoas à sua volta indicia uma falta de valores abismal. Mas prognósticos só no final do jogo. Ou do filme, neste caso. Da minha parte, posso dizer que é preciso ter estômago, não é um filme fácil de se ver. É controverso e chocante. Claro que, tendo visto o filme sem legendas (diz que se fala inglês aqui nesta terra e, por isso, não é preciso) e dado o cerradíssimo sotaque escocês do Sr. McAvoy e demais actores, houve partes que nada percebi do que eles diziam! Preciso habituar o ouvido. Mas gostei. Às vezes é bom ver um filme que mexe connosco, que nos põe a pensar e nos incomoda. Até porque a vida é mesmo assim. Dura.

A vida num turbilhão

O último mês foi confuso. Fui a Portugal passar duas semanas de férias, que consigo trouxeram uma epifania difícil de aceitar. Mudar de país, por muito glamouroso que pareça à distância, tem consequências nas nossas relações que é preciso enfrentar. Ao estar longe da vista, fica-se também, invariavelmente, um pouco longe do coração. Perde-se um certo fio condutor que só existe quando conseguimos, melhor ou pior, ir acompanhando de perto a vida uns dos outros. É-me difícil aceitar, embora saiba e perceba que é uma verdade incontornável. Claro que os amigos continuam amigos, pelo menos alguns. Mas as amizades tornam-se diferentes. Crescem ou implodem. Esta é, portanto, uma altura complicada para mim - muitas mudanças, pouco apoio, mas com a certeza/esperança que será passageiro.

Há precisamente uma semana atrás, recebi uma notícia difícil de digerir - a morte do meu Alberto, gato que acompanhou a minha vida nos últimos sete anos. Quem não "aprecia" animais, o melhor é parár de ler neste momento. Foi uma perda muito grande para mim, agravada pelo facto de estar longe e não ter acompanhado os seus últimos momentos. É-me penoso imaginar que, na próxima vez que for a Portugal, ele não estará lá para me receber... A vida é feita de perdas, é verdade, mas esta veio numa altura difícil.
Não penso muito naquilo que aqui escrevo neste momento. Apenas quero de alguma forma explicar porque não tenho andado com a melhor das cabeças para actualizar este espaço. 

No entanto, tenho também que dizer que o último mês trouxe um acontecimento muito feliz, com o nascimento do mais recente membro da família. Finalmente um rapaz, para fazer as delícias da mãe, da tia e da avó! Felicidade extrema por tudo ter corrido bem, apesar da pequena angústia em saber que, desta vez, não serei uma tia presente... Por vezes pergunto-me que raio de caminho é este que percorro, mesmo que ciente de que é preciso seguir o meu rumo. Todos precisamos ter as nossas vidas individualizadas, ainda que isso nos faça sentir sós. Mas, na verdade, não estamos. Pois não?...

The Red House - Mark Haddon

Nada como um livro interessante para nos pôr a ler como se não houvesse amanhã. Muitos de vocês conhecerão com certeza essa sensação. Cada vez que me acontece semelhante coisa, continuo a ficar extremamente feliz (porque uma boa leitura é algo que me faz feliz). E foi exactamente o que aconteceu com este livro de Mark Haddon, The Red House
Tenho que ser verdadeira e admitir que, no início, não foi exactamente assim. O livro, que descreve uma semana de férias no campo de um casal de irmãos e respectivas famílias, tem um início lento. Daqueles em que não se percebe muito bem para onde a história vai evoluir... Mas acaba por nos contar isso mesmo: como duas famílias que nada têm a ver uma com a outra se relacionam na partilha de um mesmo espaço e tempo durante uma semana de férias em comum. Consigo perceber que, para muitos de vós, esta talvez não seja uma premissa deveras interessante... Para mim, que aprecio uma boa história sobre pessoas/famílias disfuncionais, é escrito à medida. Porque aprendo sempre alguma coisa, quanto mais não seja a olhar mais atentamente para as pessoas à minha volta. E, com um bocadinho de sorte, talvez aprenda também a entendê-las melhor. Talvez venha daí o meu fascínio por este tipo de histórias. Ou talvez seja apenas o reflexo de todos termos, dentro de nós e à nossa volta, resquícios dessa disfuncionalidade... Não sei.

* Este livro foi um dos primeiros dois que comprei em Londres. Os primeiros de muitos, se tudo correr bem. :)

E agora: Londres

Primeiros dias em Londres

Depois de quase 5 meses em Berlim, depois de 2 semanas em Portugal, e depois de todo esse tempo em negação, lá chegou a altura de rumar a norte para aquele que será o meu poiso para os próximos tempos. Para Londres, portanto.

Opto por fazer um balanço do meu primeiro mês, uma vez que o tempo foi passando e seria, agora, difícil colocar tudo em posts distintos. Tenho que dizer que tive um primeiro mês abençoado. Fui muito bem recebida, por velhos e novos amigos, o que me facilitou muitíssimo a vida - desde a procura de poiso, indicações de transportes, passando por dicas para supermercado e afins! Depois, tivemos por Londres um Agosto bastante ameno, quase sem chuva. Para me fazer acreditar que afinal não será assim tão mal... mas esperemos pelo Inverno.

Londres é uma cidade grande e isso sente-se. Muita gente, muita confusão. Transportes apinhados, a concordar com a minha imagem mental. Mas é também uma cidade ampla, com muitos parques a perder de vista, convidativos ao passeio. É também uma cidade de cultura, com quinhentas-mil-coisas a acontecer todos os dias, entre concertos, exposições, teatro... Já explorei um bocadinho desta realidade cultural. Tive a oportunidade de ver uma exposição de fotografia de Sebastião Salgado no Museu de História Natural (lugar que faz parte do meu imaginário de adolescente, desde que visitei Londres em 1997). Fui também a um concerto de piano no Royal Albert Hall, o que faz com que, em menos de um mês, já tenha conhecido um dos espaços mais emblemáticos da capital inglesa. E a cereja no topo do bolo foi, com certeza, o fim-de-semana passado em York com bons amigos, que me mostrou que há muito país (e passeio) para calcorrear!

Um mês abençoado, volto a dizer. Que fez levantar um pouco da estranheza que Londres me inspira. Afinal, talvez irá correr tudo bem. Fingers crossed. E obrigada a todos. Do coração. 

Despicable Me 2

Recentemente, dei-me conta que me esqueci de incluir aqui no blog a minha opinião sobre algo que também fez parte do programa do meu último dia em Berlim: uma ida ao cinema para ver o segundo capítulo de Despicable Me, conhecido em Portugal pelo nome de "Gru, o Maldisposto". Por isso, aqui fica, um bocadinho fora de tempo.
Vi partes do primeiro filme numa viagem de avião. Digo partes porque adormeci pelo meio e acabei por ver o início e o fim - o que, de qualquer forma, bastou para gostar da história e do seu herói improvável, Gru (deve ser a minha atracção inevitável por pessoas maldispostas...). 
Este segundo filme, mais previsível e doce do que o primeiro, não desilude. Tem piada, acção, romance, vilões. Tudo isto com personagens simpáticas e coloridas. E um final feliz. Que mais se pode pedir de um filme de animação?...

Sweet Tooth - Ian McEwan

Em trânsito pelo aeroporto de Colónia, sem nada para fazer e na perspectiva de mais um voo de 3 horas até Lisboa, resolvi-me a espreitar os livros que por lá andavam, numa das milhentas lojas que povoam o dito cujo. Chamou-me a atenção o mais recente livro de Ian McEwan, Sweet Tooth, o qual trouxe comigo. E aí começou mais uma leitura ávida, como é costume quando o livro é interessante e a cabeça está suficientemente em paz para poder assimilar a informação extra.
Estamos em plena Guerra Fria. A heroína desta história, Serena, é uma miúda oriunda do interior de Inglaterra, ansiosa por viver uma vida de glamour. Esse desejo leva-a a integrar o MI5, mas só no momento em que lhe é dada a missão Sweet Tooth é que Serena começa realmente a viver o seu "sonho" - tem que escolher um jovem escritor promissor cuja ideologia seja conveniente a um apoio velado do MI5 (e reportar as suas actividades, claro está). O desenvolvimento de uma relação pessoal entre Serena e o dito escritor irá pôr em causa a identidade de Serena e colocá-la numa situação difícil de gerir...
É um livro bem escrito, ou não se esperasse outra coisa de Ian McEwan. O seu estilo consegue ser tão variado que por vezes tenho dificuldade em reconhecê-lo. Mas é bom ler a obra de um escritor que, aparentemente, arranja inspiração em assuntos tão díspares. Refrescante, no mínimo. E talvez encontre nos finais inesperados a "imagem de marca" dele. Porque aqui temos outro, com certeza.

A gaiola dourada

Estar em Portugal faz com que consiga ter rotinas um bocadinho mais próximas daquilo a que estou habituada. Como, por exemplo, ir ao cinema, que foi coisa que praticamente não fiz enquanto estive em Berlim. 
O filme escolhido é uma espécie de filme-sensação, com todo o sucesso que teve em França e que está a ter, igualmente, em Portugal. A história tem tudo para ser um sucesso, está claro: a vida dos emigrantes portugueses em França. Não estamos a falar da nova emigração, mas sim daquela vaga que levou tantas pessoas até França nas décadas de 1960, 1970, 1980. Muito mais interessante, portanto.
Não vou alongar-me em considerações acerca da história, porque provavelmente a maioria já ouviu falar. Mas posso dizer-vos que o filme está muito bem conseguido, os actores, sem excepção, estão muito bem e, melhor do que isso tudo, é um filme divertido! Fartei-me de dar gargalhadas, coisa que não é nada comum em mim... Para quem ainda não viu, recomendo vivamente que se apresse a ir até ao cinema mais próximo. Vale muito a pena e acho que é nosso "dever"apoiar e acarinhar estes projectos de qualidade.
Claro que, enquanto via o filme, pensei muito sobre aquilo que será o meu futuro a curto prazo, enquanto emigrante. As circunstâncias são outras, sem dúvida, mas acho que no final do dia todos sofremos do mesmo mal, que são as saudades daquilo que faz intrinsecamente parte de nós.

Devendra Banhart x2

Este ano, resolvi transformar-me numa groupie. Bem, talvez não no sentido mais lato da expressão! Quero com isto dizer que, no espaço de menos de um mês, vi dois concertos de um dos meus músicos favoritos, Devendra Banhart. Primeiro em Berlim, sozinha; depois no Porto, na companhia de dois amigos.
Tal decisão teve definitivamente lados bons, mas também teve um lado mau (importante). O de perceber que o alinhamento era muito semelhante. Depois do concerto em Berlim, em que não gostei muito do ambiente (já aqui referi que os alemães não fazem o meu género em termos de público), achei que tinha que experimentar ver Devendra com uma audiência portuguesa. Muito embora muito mais acolhedor, respeitador e interessado, o público presente na Casa da Música talvez tenha intimidado o cantor, que se mostrou bem mais reservado do que tinha estado no concerto berlinense. Ainda assim, tentou comunicar em português, o que foi amplamente apreciado. 
Posso assim dizer que ganhei com esta experiência dupla. Houve coisas melhores num concerto e coisas melhores no outro. Até houve alternância entre canções que adoro... Por isso não me posso queixar, está claro. Mas fiquei desiludida por perceber que nem todo o calor de um bom público português (e nortenho!) chegou para fazer o Devendra dar um bocadinho mais de si.

Kosmos Farbe - uma exposição de Itten e Klee na Martin Gropius Bau

No meu último dia em Berlim (e durante uma das várias vagas de calor que presenciei na cidade, com as temperaturas a chegarem aos 36, 37ºC), resolvi ir até um sítio onde ar condicionado fosse uma garantia. E não há assim tantos em Berlim!
O escolhido, até porque já há muito tempo que queria lá ir, foi o museu Martin Gropius Bau. O facto de ter uma exposição dedicada a Klee foi uma razão extra. 
Não sei se sabem, mas sou muito básica na minha apreciação de arte. Querendo com isto dizer que tenho um gosto particular por cores e formas geométricas, o que significa que esta era uma exposição ideal para mim (Kosmos Farbe significa, numa tradução livre, o universo da cor). Tenho que confessar que adorei, formas e cores. Por várias vezes me deu vontade de arrancar as telas da parede para as poder levar para casa - ficariam mesmo bem nas minhas paredes. Uma sensibilidade infantil, mas que me deixa muito feliz.

L'étranger - Albert Camus

Com a minha mudança para um país estrangeiro (ainda Berlim e a Alemanha), achei que seria interessante reler uma das obras emblemáticas de um dos meus escritores favoritos. Refiro-me a "L'étranger" de Albert Camus - achei que fazia algum sentido. Não que o estrangeiro deste livro se refira a nacionalidades...
Como já provavelmente leram por aqui, gosto muito da escrita de Camus. Há algo na luz da sua escrita que me fascina. Por isso, foi muito bom voltar a ela. Como também foi muito bom voltar às leituras em francês (faz-me uma certa falta, essa língua). A leitura foi a duas velocidades: primeiro lenta, depois num ápice. É uma história estranha, esta do estrangeiro. Um homem que é estranho ao mundo, à sociedade e suas convenções, um homem que não pertence. 
Não posso dizer que me identifique com a história. Claro que não. Mas por vezes sinto esse desfasamento. Esse sentimento de não fazer parte, de ser estranha ao mundo que me rodeia... Nesse aspecto, sinto que esta história faz algum sentido. E é sempre um prazer (re)ler Camus. À bientôt.

Regresso (e adeus) ao Schokoladen

Uma semana depois, o regresso ao Schokoladen, para mais um par de concertos. Regresso este com carimbo (em forma de anjo) de despedida...
A boa companhia manteve-se (obrigada, miúdos!), a música revelou-se um pouco diferente da semana anterior. Primeiro, uma banda multinacional, de seu nome Sweet Paste, vinda de Madrid (mas em que apenas um dos membros é espanhol), com um estilo folk-rock do qual gostei. Depois, novamente uns habitués da casa - os franceses Coming Soon. O som mais intimista do passado (segundo me dizem) deu agora lugar a uma pop mais energética e dançável, com um vocalista aos saltos e a deixar a dúvida sobre que substâncias teria ingerido... O serão não foi tão agradável como da última vez, principalmente devido ao calor (humano e não só) que se fazia sentir na sala. Mas a conversa posterior no parque vizinho, programa tão tipicamente berlinense, compôs sem dúvida a noite.

Phoebe Kreutz @ Schokoladen, ou a epifania

Até ao lavar dos cestos ainda é vindima. O ditado português faz todo o sentido para descrever as últimas semanas em Berlim - aproveitar a cidade até ao último dia. E foi assim que rumei até ao Schokoladen para um dos múltiplos concertos que por lá passam. Sítio simpático, ambiente aparentemente familiar pelo que me foi revelado. Fui até lá por indicação, na companhia de gente simpática. Primeiro, um rapaz americano em palco, dedilha uma guitarra. Agradável, mas pouco  mais do que isso. Depois, a também americana Phoebe Kreutz (habituée por aquelas bandas) toma conta do palco, com a sua voz doce e canções fáceis. As letras, divertidas, são cantadas em uníssono por um grupo de fãs (de longa data?). O ambiente é sem dúvida acolhedor. E, no final do concerto, vem o momento da epifania em forma de canção. Walk me home podia ser uma história contada por mim, de uma noite quente que calhou ser a mais curta do ano. E a do início do Verão. As coincidências são engraçadas. Mas talvez as experiências de vida sejam mais sobreponíveis do que aquilo que uma pessoa normalmente esperaria... 
Um belo serão. Sem dúvida.

O fim de Junho e as últimas visitas


O fim do mês de Junho trouxe consigo muitas mudanças, mas trouxe igualmente uns amigos muito especiais até Berlim, naquela que foi a última visita que recebi. A disposição talvez não tenha sido a melhor (e por isso peço desculpa), mas foi bom ter caras conhecidas por perto nesse momento. Passear, conhecer novos sítios em Berlim, calcorrear aqueles que já são familiares... mas também conhecer pessoas novas, relaxar no canal. Um pouco de tudo. É por isso que é tão bom receber visitas, principalmente de gente amiga. Fazem-nos sentir mais nós, mais autênticos, e aproveitar melhor todos os momentos. Obrigada.

Les cousinettes à Berlin


As cousinettes gostam muito de passear. Juntas ou em separado. Mas quando uma delas calha de estar a viver por terras alheias, lá vai a outra fazer uma visita. É assim que tem sido até agora e assim espero que continue. O que trouxe, então, a Carol pela primeira vez a Berlim, para me fazer uma visita.
Gosto muito de andar no passeio com a Carol. Acho que nos entendemos particularmente bem - ambas somos curiosas, gostamos de pic-nics no parque e de calcorrear ruas com a máquina fotográfica a tiracolo. E os dias que passámos juntas (tão curtos) foram mesmo recheados destas coisas - programas culturais inesperados (como tocar um sino na torre de uma igreja!), novas zonas da cidade para descobrir, palácios de princesas para preencher a nossa imaginação... Momentos muito bem passados, para me lembrar de como é bom ter as pessoas que gostamos por perto. 

Next stop - London?...

Bonobo @ Astra Kulturhaus

Antes que Julho termine, deixa-me fazer mais algumas actualizações a este "arredado-para-segundo-plano" blog.
No dia de Santo António (e dia em que a prima Carol chegou a Berlim para passar uns dias comigo), o produtor musical inglês Bonobo passou pela cidade. É uma música à qual tenho algumas ligações emocionais e por isso era um concerto ao qual gostaria de ir. O problema é que, quando me decidi a comprar bilhetes, já eles estavam esgotados... No entanto, no próprio dia do concerto, e por algum acaso feliz, conseguimos comprar dois bilhetes, e lá fui eu e a Carol até à Astra Kulturhaus para ver o dito cujo. Tenho que confessar que, apesar da alegria que me deu termos arranjado bilhetes em cima da hora, não estava no meu melhor dia para apreciar um concerto daquele género. Cansaço, talvez. É sempre difícil perceber porque é que uns dias estamos em sintonia com algo, enquanto noutros dias não. O concerto não foi mau e até reconheci algumas músicas (embora não seja, de forma alguma, uma aficionada). Mas realmente não fiquei imbuída do espírito da coisa. É pena. Valeu pela experiência e pela companhia da minha cousinette. Ou, como diz o outro, a alma não é pequena.

O regresso a casa

o bolo de aniversário

Há razões, para além da mais-que-normal saudade, que me levam a regressar a casa, nem que seja por pouco mais de 48h. E uma delas é, sem dúvida, o aniversário da minha pequena princesa. Já lhe conto 4 anos... Posso usar todos os clichés possíveis e imaginários - "como o tempo voa", "parece que foi ontem que a vi nascer", entre tantos outros. Mas é mesmo verdade (como, aliás, é normal acontecer com os clichés). Parece-me inacreditável que já tenham passado 4 anos sobre aquela terça-feira de nervos e extrema felicidade. Regressar a casa trouxe-me também muita alegria. Rever a família, alguns amigos, os meus gatos queridos!!! Ouvir a Radar, conduzir - tudo coisas que parecem tão insignificantes mas que me faziam imensa falta. Foram, por isso, bons momentos, que aproveitei avidamente. Para guardar comigo, gravados na memória e no coração.

Antes da Meia-Noite

Vamos então ao primeiro update. Aproveitei a ida a casa e fui ver, com a minha querida mana, o terceiro e último capítulo desta história que começou bem lá atrás, há 18 anos. Na minha vida, chegou com um bocadinho de atraso, mas não muito. Lembro-me dos Verões passados a ver o "Antes do Amanhecer" em VHS, quando tinha 14, 15 anos... "Antes do Anoitecer" chegou quando andava eu por terras francesas, onde o vi na companhia da prima Carol. E agora "Antes da Meia-Noite" chega quando ando por terras alemãs... ele há coincidências engraçadas.
Mas então o que se pode esperar quando chega ao fim (não lhe chamaria um fim, mas um encerrar de portas, por assim dizer) uma história que nos acompanhou durante mais de metade de uma vida?... As expectativas são sempre muitas - boas ou más, talvez não interesse. Falei com gente céptica, cuja opinião é de que não deveria haver um terceiro filme, que a história já deveria ter acabado há muito tempo, etc., etc., etc.. O meu sentimento era diferente. Queria saber como a história de amor entre Jesse e Céline evoluiu depois daquele fim de tarde em Paris. Este filme é isso e muito mais. É a fase seguinte. É uma história de amor tornada real, com todas as suas limitações e defeitos. Digamos que o enfoque é, desta vez, na parte problemática das relações a dois - gestão familiar, gestão do tempo que passa e que nos faz envelhecer... Sinto que esta história cresceu comigo, faz intimamente parte da minha vida. E acompanha-me agora na "maturidade", sem as antigas expectativas românticas de outros dias... Nem de propósito. Talvez o amor seja assim. Não sei. Mas continuo a gostar de viagens de comboio.

O silêncio de Junho

Este blog tem estado parado, talvez pelo período mais longo de tempo desde a sua criação, há mais de 5 anos atrás. É um facto talvez inusitado, pois nem quando estive a escrever a tese deixei de me dedicar a esta escrita... Mas Junho foi um mês complicado. Regresso a casa, visitas de família e amigos, trabalho e todo um batalhão de preocupações. A vida prega-nos partidas, por vezes. E estar longe, num outro país, é uma situação tudo menos ideal. A minha cabeça (e, consequentemente, a minha disposição) tem estado aérea. Por isso, encontrar um pouco de calma para me sentar e escrever estas palavras não é fácil. Ainda assim, quero quebrar o silêncio e deixar a mensagem de que espero, em breve, ser capaz de escrever todos os posts que tenho pendentes. Para mim e para vocês, os meus queridos leitores.

Até breve.

Há uma primeira vez para tudo


Como, por exemplo, para ver uma banda que se adora há já muitos anos... E foi precisamente isso que aconteceu neste início de Junho, com a vinda de Iron & Wine a Berlim, num dos poucos concertos que compõem a digressão europeia do senhor.
Estive indecisa em relação a comprar bilhete ou não. Sem companhia, precisei encontrar em mim mesma a motivação para o fazer (não ajudava o preço - elevado - do bilhete). Talvez seja difícil perceber de onde vinham as dúvidas... mas o último álbum não é propriamente o mais fantástico e visionamentos de algumas prestações ao vivo faziam crer que talvez fosse ter uma desilusão. Ainda assim, a influência da M. cá por casa fez-se sentir e lá me decidi a comprar o dito cujo! E assim, nessa primeira quarta-feira de Junho, rumei até ao Admiralpalast, belo teatro no centro de Berlim (a fazer lembrar os nossos teatros), naquela que foi a minha primeira incursão num concerto deste género desde que me mudei para cá.
A primeira parte ficou a cargo de uma banda inglesa, de seu nome This is the Kit. Som calmo, intimista. Gostei. Depois de uma pausa, entra em palco Mr. Beam, Sam Beam (aka Iron & Wine), acompanhado de algo que mais parecia uma mini-orquestra - não faltavam violinos, violoncelo, saxofones, trompetes, e muita gente para ajudar nos coros. A puxar mais para o estilo do novo álbum, portanto, algo distante do som predominantemente folk a que este senhor nos habituou no passado. No entanto, o concerto teve um pouco de tudo, ainda que com especial ênfase no último álbum, Ghost on Ghost. Momentos mais calmos, com Sam Beam em palco apenas acompanhado da sua guitarra, proporcionaram passagens pelo passado, incluindo uma versão surpreendente de Boy with a coin. Aliás, não faltaram versões quase irreconhecíveis de diversas canções (tal como de Such great heights, original dos Postal Service, ou Jezebel). No total, o concerto durou cerca de 1h45, com momentos algo díspares, mas sempre interessantes. Acabou com um encore no qual o músico optou por tocar Naked as we came, sozinho com a sua guitarra.
Claro que ficaram muitas canções por tocar. Algumas das minhas favoritas. Mas com uma discografia já com cinco ou seis álbuns, não é fácil agradar a toda a gente (e eu aceito a minha parte). Talvez o que me tenha desagradado tenha sido o público alemão. Frio, mas ao mesmo tempo barulhento, com pessoas a andar de um lado para o outro durante o concerto, entrando e saindo da sala constantemente. Mais respeito seria agradável.

Tirando isso, foi um belo regresso... ao futuro.

E as visitas continuam


Já diz o ditado que "não há fome que não dê em fartura". O que me parece de alguma forma apropriado para descrever o facto de ter a segunda visita em Berlim apenas dois dias depois de dizer adeus às primeiras visitas. Muito bom.
Desta vez, dei as boas-vindas à M., amiga de longa data. O tempo não esteve propriamente de feição, pelo que foi necessário encontrar estratégias alternativas de "aproveitar" Berlim. O que não foi, de todo, negativo! Foi uma visita diferente - saímos muito, dançamos, divertimo-nos. Provavelmente, como já não acontecia há muito tempo. Ficam para a história noites muito bem passadas. E uma visitante satisfeita. Pelo menos, assim o espero. E cá te esperarei para futuras visitas, miúda.

As primeiras visitas em Berlim


Maio será sempre um mês especial. Quanto mais não seja porque é o mês em que a minha mana faz anos. E, neste ano em que estou longe, ela veio passar o seu aniversário comigo. A minha primeira visita em Berlim. Claro que, com ela, veio o resto da família. O que proporcionou fortes emoções, nomeadamente no reencontro da minha princesa pequenina, e me fez sentir de regresso a casa (ou não tivessem sido eles a minha casa nos últimos cinco anos...).

Foi bom ter a casa cheia, de pessoas e de vida. Foi bom redescobrir uma Berlim mais turística, que ainda não tinha visitado nestes quase 3 meses, mas também conhecer novos lugares. Foi bom poder partilhar com eles aquela que é a minha vida neste momento. E foi principalmente bom poder sentir de novo o carinho que só aqueles que nos amam nos conseguem transmitir... Acho que estava com saudades.

Pequenas coisas da vida


E, ao penúltimo dia do mês de Maio, vejo um postal preso na ranhura da porta ao chegar a casa. São coisas "pequeninas" como estas que fazem os dias valer a pena.

This is not a film

Como já perceberam, as idas ao cinema não têm sido particularmente profícuas aqui em Berlim (a barreira linguística é realmente um problema). Mas descobri (não por mim própria, mas através de uma dica) que existe uma Berlin Film Society que organiza umas sessões temáticas, tendo sempre a preocupação daqueles que não falam a língua alemã. Boa. Para Maio, organizaram as "quintas-feiras dos documentários". Não consegui ir à primeira, mas a segunda não me escapou (apesar da preguiça...), talvez por ser um documentário que há muito me interessava ver: This is not a film, de Jafar Panahi, realizador iraniano que se encontra, desde 2010, numa espécie de prisão domiciliária, tendo sido acusado de propaganda pelo governo iraniano e, consequentemente, condenado a 6 anos de prisão e a uma interdição de 20 anos de fazer filmes, escrever argumentos, dar entrevistas ou qualquer outro actividade relacionada. Foi na sequência desta sentença que Panahi fez este documentário (a ironia do título "Isto não é um filme", porque Panahi se encontra proibido de fazer filmes), cujo objectivo primordial era, aparentemente, contar a história do filme mais recente que o realizador queria fazer. Mas acaba por funcionar como um testemunho, um diário de um homem a quem foi retirada a sua vida. Porque a vida de Jafar Panahi é contar histórias através de filmes.
É chocante sem ser agressivo - está tudo lá, nas entrelinhas. Custa-me ver que alguém com tanto para dizer é impedido de o fazer, enquanto por esse mundo fora tanta gente tem a liberdade de apenas dizer porcaria. É um mundo triste, este. Mas que continuem a sair cá para fora, dentro de bolos ou através de outras estratégias afins, as obras deste senhor, para que possamos continuar a ouvir a sua voz.

1º de Maio



Diz que o 1º de Maio é o Dia do Trabalhador, um pouco por todo o mundo. Mas diz também que o 1º de Maio é um dia especial em Berlim, especialmente na área de Kreuzberg, com um historial de manifestações e confrontos com a polícia. Porquê, não sabia até hoje ter ido ler um pouco sobre o assunto - sendo que o 1º de Maio é, tradicionalmente, um dia de festa e celebração, no ano de 1987 manifestantes de grupos anti-fascistas e de extrema-esquerda envolveram-se em graves confrontos com a polícia, que teve que se retirar por completo da área de Kreuzberg. Desde então (e já passaram 26 anos), o dia é normalmente marcado por alguns desacatos... mas nos últimos anos a situação tem acalmado e, na passada quarta-feira, em que também eu rumei a esse pedaço de Berlim, o ambiente era unicamente de festa. Milhares de pessoas nas ruas, música, comida, bebida. Muita animação. Nada que fizesse propriamente lembrar que estamos num país tão amplamente associado à austeridade... emocional. Porque Berlim é, definitivamente, uma cidade diferente.

E os hipopótamos cozeram nos seus tanques - William S. Burroughs & Jack Kerouac

Último livro que comprei antes de vir para Berlim. E sim, é verdade, regressámos aos Beat. Se calhar, até tenho algum tipo de fascínio por estes escritores...
Este livro tem um contexto importante e interessante, que eu desconhecia até o ler. Antes do desabrochar, propriamente, da Geração Beat, da qual Kerouac, Burroughs e Allen Ginsberg representam os nomes maiores, houve um acontecimento trágico que marcou, provavelmente, o desenrolar da história (minúscula ou maiúscula?...) - a morte de David Kammerer às mãos do jovem Lucien Carr, eles que protagonizavam uma relação excessiva, bem ao jeito dos Beat. E é precisamente a este acontecimento que Kerouac e Burroughs vão buscar a sua inspiração para escrever "E os hipopótamos cozeram nos seus tanques" a duas mãos, livro este que ficou perdido para publicação durante mais de 60 anos e que chegou, neste ano de 2013, a Portugal.
A escrita a duas mãos é bastante interessante porque nos vai dando duas visões distintas dos mesmos acontecimentos. Claro que o livro é, de determinada forma, autobiográfico, porque cada um dos autores conta a história consoante a viu e viveu. Mas claro que também há muito de ficcional nesta escrita. O leitor fica, assim, como que no meio da ponte, entre realidade e ficção. 
Foi uma leitura da qual gostei. Faz um retrato da vida em Nova Iorque nos anos 1940, Segunda Guerra Mundial, excessos atrás de excessos... E de como este ambiente influenciou uma geração de escritores e artistas. 

Pictoplasma - Best of 2013

Escrevo com algum atraso. A semana, ocupada, não me deu paz de espírito suficiente para me dedicar à escrita. Mas este domingo simpático é a altura ideal para o fazer. 
No passado fim-de-semana, fiz o meu primeiro programa de cinema em Berlim. Não para ver um qualquer filme, mas sim para assistir às melhores curtas de animação do festival Pictoplasma (Festival and Conference of Contemporary Character Design and Art). O que foi, definitivamente, uma óptima ideia, visto que gosto de curtas e gosto de filmes de animação. Sinto que, de alguma forma, é mais fácil veicular informação nestes formatos.
A sessão que assisti, como disse, pretendia compilar o que de melhor passou pelo festival. E passaram coisas muito interessantes. Algumas nitidamente com um cariz mais político, como a curta "This land is mine", de Nina Paley (a qual adorei), outras com um propósito específico, como "Dumb ways to die", de Ollie McGill, encomendada pelo Metro Trains como alerta de consciência para os perigos dos comboios. Estas duas foram, provavelmente, as que melhor me ficaram na memória. Mas todo o conjunto era muito interessante, pelo que valeu muito a pena. Muitas gargalhadas, canções que ficam no ouvido (e não querem de lá sair!)... um serão bem passado.

This is the country - William Wall

Pois é, a leitura não anda profícua. Há que continuar a ter esperança e achar que, eventualmente, esta maré há-de mudar...
Ainda assim, após uns bons três meses, cheguei ao fim deste This is the country, de William Wall. Não conhecia o autor nem o livro, mas foi-me recomendado/emprestado pelo Russell, que é uma pessoa cujo gosto literário eu confio. Estava igualmente garantido que estaria na presença de uma leitura algo deprimente... o que não facilitou ao seu andamento.
Vamos, então, à história. Há um protagonista, cujo nome não creio que seja alguma vez mencionado. A acção passa-se na Irlanda, mas não em Dublin, o que me deixa na dúvida se estaremos a falar de Belfast e Irlanda do Norte... mas, realmente, não sei, porque tal nunca é abertamente mencionado. Voltemos ao protagonista - cresceu num qualquer bairro complicado, rodeado por marginais e um estilo de vida problemático. Adolescência mergulhada em todo o tipo de drogas, a sua vida muda quando engravida a irmã de Pat the Baker, o traficante maioral lá do pedaço. A partir deste momento, o rapaz tem a cabeça a prémio e a sua vida irá mudar por completo.
É uma história deprimente, claro que é. Mostra como é difícil dar a volta a uma vida que começa mal, como o percurso de cada um parece estar de alguma forma intimamente ligado a tudo um conjunto de factores fora do controlo, como a vida pode ser inexoravelmente madrasta apesar de todo e qualquer esforço... Será que há volta a dar-lhe? Não sei. Mas, ao mesmo tempo, este livro tem uma mensagem de esperança, por assim dizer. Porque a vida continua sempre, e temos que a viver. Independentemente de ser melhor ou pior, de ser a vida que ansiamos ou não. Há que fazer o melhor com as cartas que se tem na mão. 
Acho que é essa a mensagem. Por isso, gostei.

Palma Violets ao vivo @ Lido

Primeira incursão na cena musical (que não clássica) berlinense. Os escolhidos? Palma Violets, banda originária de Londres, com um pézinho ali no punk-rock. Não conhecia, mas ao ouvir as gravações de estúdio, fiquei impressionada - um vocalista principal com uma voz bem grave, profunda, daquelas que vai até à alma... Bem impressionada, portanto.
Ao vivo, lá se foi a boa impressão. Concerto completamente caótico, com o baixista completamente alucinado (como já não via ninguém há muito tempo...) e a acabar com uma invasão de palco por parte de um grupo de miúdos cuja hora de deitar parecia já ter passado há algum tempo... Enfim. Não digo que os miúdos (perceba-se, da banda) não tenham jeito para a coisa. As (boas) influências estão lá - The Clash, talvez um pouquinho de Joy Division... Mas falta-lhes um bocadinho de juízo. Não digo muito, mas há que crescer e amadurecer um pouco aquela histeria. Se não, não há quem os ature, por muito boa que seja a música.

Berlinische Galerie - Museu de Arte Moderna

Segunda-feira a seguir à Páscoa é feriado na Alemanha. E ele há lá maneira melhor que aproveitar um feriado do que indo a um museu?... Talvez haja, mas para programas solitários, é do melhor que se pode arranjar!
Entre várias hipóteses, optei por fazer uma visita à Berlinische Galerie, que é o Museu de Arte Moderna, Fotografia e Arquitectura cá do sítio - bem ao jeito das minhas preferências, mas também aproveitei o facto de, nas primeiras segundas-feiras do mês, a entrada ser a metade do preço.
Neste momento, para além da exposição permanente, estão patentes três outras exposições (ou, pelo menos, foi aquilo que eu vi). Uma de K.H. Hödicke, pintor alemão; outra sobre os projectos arquitectónicos para edifícios públicos e embaixadas no período posterior a 1990 (no seguimento da queda do muro); e uma terceira de Sergej Jensen, vencedor do Prémio Fred Thieler 2013. Sobre este último não vou falar muito, porque não me despertou particular interesse. Agora das restantes exposições gostei muito. Hödicke tem trabalhos muito interessantes (fotografias do canto superior esquerdo e do canto inferior direito), muito fortes visualmente. A exposição de arquitectura é muito interessante do ponto de vista histórico, porque retrata algo de muito único nos tempos que correm, que é o renascer de uma cidade. É uma perspectiva muito interessante. E a exposição permanente, que faz um compêndio da arte berlinense de 1880 a 1980, engloba todo um conjunto de arte fascinante, passando por várias períodos históricos (Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Pós-Guerra/Muro), mas também por diversas correntes artísticas.
Gostei muito. Foram 2h30 muito bem passadas, cheias de descobertas.

Novas tradições de Páscoa...


Mais uma Páscoa passada fora de portas. Tem sido tão comum que já não me lembro de estar no Pinheiro rodeada pela família, à espera do cabrito... Mas, desta vez, foi uma Páscoa diferente - não ando a viajar por um qualquer canto do mundo, estou mesmo a viver fora do país. O que torna toda a dinâmica destes momentos diferente.

Assim, o convite feito pelo big boss para um aparentemente típico pequeno-almoço de Páscoa acabou por calhar mesmo bem, mesmo em jeito de substituto de algo mais familiar. 11h em ponto lá estávamos nós no bairro mais chique de Berlim, último piso de um sólido prédio antigo que revela uma casa cheia de charme (incluindo um piano de cauda na sala de estar - que sonho!). Mesa cuidadosamente posta, mas de forma acolhedora, cheia de iguarias. Das quais se destacavam, obviamente, os ovos cozidos, coloridos, quais donos da mesa. O objectivo, segundo percebi, é comer de tudo. E misturar tudo, no mesmo prato. Só não vale não comer. E foi exactamente isso que fizemos, como bons convidados. 

Claro que houve momentos estranhos, de pouco à vontade, como em qualquer situação em que se tenta uma intimidade que não existe. Uma Páscoa diferente, sem dúvida. Mas foi bem giro.

Tannhäuser and the Singers' Contest at Wartburg @ Deutsche Oper Berlin

Com o fim-de-semana da Páscoa veio o primeiro programa "cultural" em Berlim - e que começo auspicioso esse, com uma ida à ópera na Deutsche Oper Berlin. Com a companhia de alguns colegas de laboratório, o final de tarde de sábado trouxe consigo esta obra de Richard Wagner, de seu nome (em Inglês) "Tannhäuser and the Singers' Contest at Wartburg". É uma ópera em 3 actos que conta a história (ou melhor, o drama) de Tannhäuser que, depois de uns tempos bem passados (por assim dizer) na montanha de Vénus, deseja voltar à sua vida terrestre e reencontrar a sua amada, Elisabeth. Com a intercepção da Virgem Maria, Tannhäuser consegue regressar, mas durante o concurso de cantores em Wartburg resolve cantar sobre as suas aventuras com Vénus. O público, enfurecido, decide que ele terá que viajar até Roma e pedir perdão ao Papa pelos seus pecados, o que não acontece, resultando assim na morte de ambos os protagonistas, Elisabeth e Tannhäuser, visto não poderem estar juntos como tanto anseiam.

Assim contado até parece simples, embora muito dramático, sem dúvida! Aparentemente, as óperas alemãs têm uma tendência para o dramatismo... Mas agora imaginem assistir a esta obra com os cantores a cantarem em alemão e com as legendas em alemão. Ora bem, não percebi nada. Tenho mesmo que confessar. Esforcei-me, mas foi complicado. No entanto, foi uma experiência muito interessante, porque as partes "universais", como a música e a encenação, eram de uma qualidade muito elevada. A encenação, em particular, surpreendeu-me pela sua complexidade. 
Por isso, primeiro programa cultural aprovadíssimo. Deixa vontade de voltar, provavelmente para algo um bocadinho mais animado e menos trágico. Mas, sem dúvida, uma experiência para repetir.

Ah, e com a modesta duração de 4 horas...

Berlim: a primeira semana



De vez em quando é preciso fazer pontos de situação. E quando nos mudamos para um país novo, a necessidade talvez seja um bocadinho maior... Então, agora que já ultrapassei a minha primeira semana em Berlim, o que tenho a dizer sobre isso?
Bem, a primeira coisa que me vem à cabeça é talvez o frio - como está frio nesta terra! Já nevou várias vezes desde que cheguei e o manto branco por cá continua, sabe-se lá para durar até quando. É giro, claro que é, mas a partir do segundo dia acho que perde o encanto (como tudo que entra na rotina). Fica o frio que se entranha pelos ossos, e os fusos de gelo do lado de fora da janela. Portanto, para além da neve, de que posso eu falar?... 
Ainda não deu para passear muito, pelos motivos indicados no parágrafo anterior. Para além de um passeio pelo Tiergarten, no centro da cidade, apenas dei um outro passeio no parque de Büch, a bela terriola onde está sediado o instituto... Neve, neve, neve, lagos gelados que ainda assim não "empurram" os patos para paragens mais quentes (como o nosso Portugal). Tempo houve também para socializar e começar a conhecer novas pessoas, explorar a gastronomia da cidade, preguiçar pelos inúmeros cafés... Tentar de alguma forma afastar a estranheza, inevitável por estes dias.

Mas é mesmo assim. Tudo faz parte do processo. Primeira semana - check. Com um sorriso.

Ich bin ein Berliner*


Pois é, o mote tinha sido dado há já alguns meses. E agora aconteceu mesmo. O Terceiro Passo mudou de ares. Anda a passear. Para ver mundo e, quem sabe, mudar de vida. Permitir que a ilusão finalmente se complete. Sempre nessa ânsia... Porque "tudo vale a pena, se a alma não é pequena." Como dizia o genial Pessoa, cheio de sabedoria. Que a alma seja sempre suficientemente ampla para abrir os olhos e abraçar a vida. Que hoje seja Berlim a acolher-me, mas que possa sempre sentir o carinho do mundo... onde quer que vá. E fazer parte dele.

*no passado JFK, hoje eu

O regresso (e o adeus) ao Clubbing da Casa da Música

Passados quase dois anos (e após uma ligeira mudança de formato), regressei às sessões de Clubbing da Casa da Música. O principal motivo?... O regresso a Portugal de uma banda mítica, de seu nome Yo La Tengo (que, face ao preço do bilhete, foi realmente uma oportunidade imperdível). O ter podido assistir a este concerto com a companhia de dois grandes amigos foi um enorme bónus e fez desta ida à Casa da Música uma bela despedida (um até breve, prefiro assim).
Os Yo La Tengo fazem, desde há muito tempo, parte do meu imaginário musical. No entanto, não possuo nenhum dos seus álbuns e, tenho que confessar, também não conheço particularmente bem a música do trio americano. Mas aquilo que conheço, gosto, e isso é suficiente para me levar a um concerto. 
Acho que posso afirmar que este foi um concerto único. E passo a explicar porquê. Primeiro, houve durante praticamente todo o concerto uma sensação de desconforto da banda, como se o palco fosse demasiado grande para eles, bem como a plateia cheia. Que culminou no momento em que Georgia Hubley é "obrigada" pelos restantes membros da banda a ser a voz de uma canção em que quase se ouvia apenas... a sua voz. Estranho, portanto. Depois, houve claramente uma alternância entre temas mais "barulhentos", com Ira Kaplan a divertir-se ao comando das suas diversas guitarras, e momentos bem mais calmos e intimistas. Ao mesmo tempo estranho e interessante, com os momentos mais barulhentos a serem quase hipnóticos, por incrível que pareça... Foi um estranho bom, um concerto sem pré-formatação, diferente daquilo que estou habituada.
O encore, com uma versão a cappella de "You Can Have It All", foi realmente a cereja no topo do bolo. Porque, de vez em quando, é bom ouvirmos as nossas músicas favoritas quando vamos a concertos.

Uma tarde bem passada


Hoje passei uma tarde diferente. Há já algum tempo que tinha curiosidade em aprender a técnica de pintura em tecido com stencils - pelo menos desde que a minha mãe começou a fazer obras tão bonitas com essa técnica. Hoje foi o dia em que me juntei a ela e a outras senhoras da Universidade Sénior de Cinfães para me iniciar nessas lides. O resultado foi este pano da louça, decorado com motivos algo pascais... Fiquei contente com o resultado e, principalmente, por ter aprendido algo novo. Fossem todos os dias assim.

Hitchcock

Se por um lado, se quebrou o enguiço da leitura, por outro lado temos enguiço para ver o tão aclamado "Amor", filme de Michael Haneke. Depois de muitas combinações e descombinações, lá rumámos ao El Corte Inglés para ver o filme quando, para nossa surpresa, não havia exibição à hora desejada naquele dia... No calor do momento e na posição de ter que escolher um filme substituto, a escolha recaiu neste Hitchcock, filme que retrata os métodos pouco convencionais do realizador por altura das filmagens de Psico.
Apesar das críticas que tinha lido até então não serem propriamente positivas, resolvi arriscar. Até porque a curiosidade em ver o filme existia de facto. Mas, para mal dos meus pecados, as críticas tinham razão. O filme é pobrezinho - Anthony Hopkins está estranhíssimo no papel de Hitchcock (parece que só se vê o silicone e a maquilhagem do "disfarce"), a história está demasiada simplificada (acharam que o espectador não teria capacidade para mais...) e tudo se desenrola à superfície, sem nunca ousar ir mais além. Hitchcock é retratado como um excêntrico, viciado em comida e bebida, voyeur e control freak - se corresponde ou não à realidade, não sei. O melhor do filme é, provavelmente, a interpretação de Helen Mirren, no papel de Alma Reville, esposa de Hitchcock. Aí sim, vê-se um pouco de profundidade, de sentimento... Tirando isso, é "produto acabado, da sociedade de consumo imediato. Mastiga. Deita fora. Sem demora."

The Bat - Jo Nesbo

O enguiço parece ter sido quebrado. Ou, pelo menos, temporariamente. Porque logo a seguir a acabar de ler Queer, foi me oferecido este The Bat, primeiríssimo volume da saga de Jo Nesbo que tem como protagonista Harry Hole, o que reavivou em mim o desejo de ler. Vai-se a ver e o que faltava era um bom thriller para me arrancar do marasmo!
Ora então, depois de ter lido quatro livros (acho eu, mais coisa menos coisa...) desta "colecção" e de muito ter lido sobre como Harry Hole ajudou a capturar um assassino em série na Austrália, chegamos finalmente ao ponto de conhecer esse episódio e ler o início dos inícios. Sim, porque a tradução para inglês data de 2012, se não me engano, apesar do livro ser originalmente de 1997... Mas vamos ao que interessa - como é chegar, apenas agora, ao início da saga? Se calhar não faz muita diferença, visto que li todos os outros livros fora de ordem... Mas, por outro lado, talvez haja aqui algo mais. Depois de ter lido aqueles que são os capítulos mais recentes, é bom perceber de onde tudo vem - quais as informações primordiais que temos sobre Harry, onde é que tudo correu mal, "porque é que ele é como é", se assim quisermos pôr a questão. É uma boa premissa. Já o enredo propriamente dito, acho que é bastante mais inocente do que aquilo que posteriormente temos oportunidade de ler, no seguimento da sua obra. Há menos pormenores, há menos suspense. Acho que se nota que é a primeira obra, com todas as suas limitações, mas também com uma energia genuína.
Claro que gostei, e gostei particularmente de voltar a sentir apetite para "devorar" um livro. Jo Nesbo é um artista destas lides dos thrillers.

Django Libertado

Já li de tudo um pouco sobre o mais recente filme de Quentin Tarantino. Desde descrições que o põem num pedestal, qual oitava maravilha do mundo cinematográfico, a críticas acérrimas relativamente ao conteúdo racista e pouco dignificante da história da escravatura nos Estados Unidos. Tenho que confessar que me custa perceber tanto umas como outras opiniões...
Para mim, que não sou propriamente a maior seguidora de Tarantino, embora aprecie bastante o género, os filmes dele são uma desconstrução da violência - está sempre presente, mas é uma violência um pouco à desenho-animado, não é para levar muito a sério. 
Django, exercício com quase 3h de duração, conta a história de... Django, está claro, interpretado por Jamie Foxx (actor que não gosto), escravo libertado pelo Dr. King Schultz (interpretação fantástica de Christoph Waltz), um alemão nos EUA, para juntos partirem pelo Sul caçando prémios e procurarem a mulher de Django, Broomhilda, ainda escrava. Pelo caminho, temos muito pedaço de corpo arrancado a tiro, muita polpa de tomate espalhada pelo cenário - o que apenas me consegue arrancar umas verdadeiras gargalhadas. Pelo caminho iremos encontrar, igualmente, o esclavagista Calvin Candie, numa interpretação de Leonardo DiCaprio que não me encheu propriamente as medidas (não é que esteja mal, mas não acho que seja a melhor interpretação que ele já fez, como também já li por aí). Claro que não poderia faltar a cena de carnificina, tão amada por Tarantino, e que, neste caso, chega já quase no final do filme. Mas mesmo a tempo de nos extasiar com tanta tinta vermelha no ecrã!!! Ah, e o papel de Samuel L. Jackson é, no mínimo, inesperado.
Mas, então, qual é o veredicto?... Adorei. Apesar das 3h (e de ter momentos um pouco mais murchos), é um filme que nos prende do início ao fim, seja pela banda sonora fabulosa, seja pelo humor acutilante, a adrenalina é garantida. Desenganemos, Tarantino não é (na minha opinião, claro está) um intelectual e não faz exercícios de intelectualidade cinematográfica. Faz sim filmes controversos, amados por uns, odiados por outros, mas aos quais ninguém fica indiferente. Eu acho-lhe piada, é um provocador. Com muito bom gosto musical.

Seis Sessões

Uma ida familiar ao cinema trouxe consigo a visualização deste "Seis Sessões", filme baseado na história de vida de Mark O'Brien, a quem a poliomielite em criança ditou uma profunda atrofia muscular para o resto da sua vida. Assim, Mark é obrigado a viver parte dos seus dias dentro de um "pulmão de ferro", equipamento que permite aos seus pulmões imobilizados respirarem. Contra todas as expectativas (baseadas naquilo que acabei de escrever), Mark é um homem dinâmico e com um óptimo sentido de humor. Jornalista e poeta, é um homem que enfrenta as suas limitações. E é precisamente o enfrentar de uma destas limitações, a de um relacionamento sexual, que é abordado neste filme. 
Para qualquer pessoa que tenha visto o trailer, é fácil perceber do se está aqui a falar. Mark, sob aconselhamento do seu padre, resolve recorrer aos préstimos de uma terapeuta sexual de forma a poder lidar mais eficazmente com a sua sexualidade (Mark pode ter os músculos atrofiados, mas todas as suas capacidades sensoriais estão operacionais) e assim perder a virgindade, aos 38 anos. 
Uma história como esta está "condenada" a arrancar muitas gargalhadas aos espectadores, tanto pelo inusitado das situações, como pelo próprio bom humor com que Mark vai lidando com elas. Mas esta é, acima de tudo, uma história comovente. Alguém que vive prisioneiro do seu próprio corpo ser capaz de viver uma vida, apesar de tudo, normal, cheia de afectos... é inspirador, no mínimo. Faz-nos pensar em tudo aquilo que vemos como problemas no nosso dia-a-dia e que se tornam limitações sérias à forma como vivemos as nossas vidas. A grande maioria de nós talvez não viva prisioneira do seu corpo, mas muitos vivem, sem sombra de dúvida, presos à sua mente.
Pelo menos,é essa a mensagem com que fico.

Gostei também das interpretações. Deve ser especialmente difícil fazer um filme em que se está o tempo todo deitado, a falar de lado, e por isso acho que John Hawkes está particularmente bem - credível, frágil mas forte. Helen Hunt, no papel de terapeuta sexual, está um pouco estranha, fisicamente falando - inteiraça, é verdade, mas a contrastar com todas as rugas do rosto... O padre de William H. Macy é muito divertido, num papel algo diferente do que estou habituada a vê-lo fazer. E todos os outros secundários também estão bastante bem.

Conclusão final: gostei do filme, é muito interessante, dentro do estilo. Despretensioso, acima de tudo. 

Queer - William S. Burroughs

Passados quase três meses de um fenómeno algo estranho em mim, consegui finalmente dedicar-me à leitura de um livro. O escolhido foi este Queer, de William S. Burroughs, escritor pertencente à dita Geração Beat. E foi precisamente o facto de estar ligado a essa geração de escritores da década de 1950 que me fez comprar este livro e embarcar na sua leitura. 
Como o próprio título indica, Queer é um livro sobre homossexualidade (masculina) e a segunda obra literária de Burroughs. Em larga escala baseado na experiência pessoal do autor, este livro segue a vivência de William Lee (alter ego de Burroughs, também personagem principal do anterior Junky) durante os anos 1950, na Cidade do México, e a sua história de amor com um jovem algo apático de nome Eugene Allerton. 
Não é, seguramente, a leitura mais óbvia, mesmo para alguém que muito aprecie a Geração Beat (e não tenho a certeza de ser um desses casos...). No entanto, a introdução por Oliver Harris no início do livro faz uma contextualização tão interessante da obra, incluindo os meandros que rodearam a sua publicação (refira-se que este livro foi escrito em 1952, mas publicado pela primeira vez somente em 1985), que a sua leitura se torna incomparavelmente mais rica. Assim, posso dizer que gostei de ler esta pequena obra de 135 páginas. Foi uma leitura ávida e fácil, ainda que a escrita de Burroughs não me agrade particularmente - um pouco coloquial em demasia, na minha opinião. Não obstante, fico com curiosidade de ler Naked Lunch, essa sim a obra mais emblemática de Burroughs. Não sei se terei estômago para tanto, mas logo veremos.

A vida de Pi

Durante a minha estadia em Lisboa, fui também ver a adaptação cinematográfica de uma obra que muito de impressionou. Estou a falar de A vida de Pi, livro de Yann Martel. Quando soube que a obra estava a ser adaptada ao cinema, fiquei algo surpreendida, porque não é uma história nada óbvia para passar para a grande tela... No entanto, Ang Lee conseguiu, na minha opinião, fazer um óptimo trabalho, quer na transposição da história, quer na gestão de tempo e ritmo dessa mesma história. Como podem ler no que escrevi sobre o livro, grande parte da acção é passada em alto mar, com apenas duas personagens. Logo por aí podem perceber que é provavelmente difícil manter o espectador interessado e contar a história de forma a que as pessoas se mantenham acordadas! Mas o que às vezes é provável, nem sempre se verifica. Claro que Ang Lee optou por fazer um filme muito mais condensado (em relação ao livro) e de certa forma bem menos violento. Porque talvez o objectivo principal fosse dar ênfase àquela que é a grande questão do filme/história: a fé como motor de vida. Nesse aspecto, a adaptação ao grande ecrã de A vida de Pi está virtualmente fiel ao seu original literário. E talvez por isso tenha gostado muito do filme. Está lá tudo, para quem quiser ver. Ou, alternativamente, pode ser "apenas" a história de como um miúdo sobreviveu a um naufrágio em alto mar na companhia de um tigre de Bengala.